Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

E de súbito, passo a invejar grandes versos. E acabo por tentar encaixa-los em minhas mãos ao fazê-los de luvas. Justas luvas. Se me cabe a sinceridade, justas até demais.
Invejo também os grandes músicos, seus instrumentais, as melodias que dispensam letras e ainda sim nos tocam fundo à alma. Se me permite abusar mais uma vez de franqueza, digo que não somente tocam fundo à alma como a faz sangrar ou sorrir, ou sangrar e sorrir - tudo é relativo.
Relatividade. O que me faz lembrar de cartas de amor nunca recebidas e há ainda aquelas nunca feitas que são apenas somadas ao cérebro completando pilhas de... como é mesmo que chamam? Ah, sim! Devaneios. Completando pilhas de devaneios... são nelas, pseudo-cartas, que espelho minhas dores, é onde exatamente crio palavras que as descrevam, como não-solidão ou quase-felicidade.
Se me permite tomar um dedo de seu tempo, falarei das minhas dores.
Elas que vezes pequenas fazem-se gigantes, e vezes grandes fazem-se cômicas - pouco importa seu tamanho, contando que doa. E dói tanto a ponto de rir de desespero. - ocupam o maior tempo de minha existência. E já que comentei de seu tamanho, puxo um pouco mais o fio e falo de seu peso, que ora faz-se sentir nas costas, ora no coração. Motivos? Não seria correto dizer que não os possuo, mas também não poderia dizer que os enxergo. E há também aqueles de sempre, que latejam as costas e comprimem o coração.

Textos, músicas, cartas...
Todos traduzem, complicam, - o que por sinal já se é bem complexo - ou apenas narram dores... claro que não só dores, mas sentimentos, dos mais sórdidos e estúpidos aos mais dramáticos e ocultos. Indizíveis e indefinidos. Paradoxais.

Compararia minha vida à uma bailarina. Mas nunca à sua real beleza e nem à leveza de seus movimentos.
Sabe... às vezes pego o fio de meu pensamento preso em seu vestido branco. Deixo que ele, o fio, desenrole quilômetros, fixados em um só ponto, a suave bailarina. Às vezes não importa o quanto ela se esforce, sempre tropeça no ultimo passo. Mesmo que errante sabe se portar tão bem perante os erros que é quase imperceptível que os cometa de fato. Ou quando se percebe, chegam a tornarem-se mesquinhos vistos da facilidade com que ela corre para um lado e logo volta rodopiando pelo outro. Como é capaz de girar inúmeras vezes sem perder o equilíbrio? E os pés? Mais parecem ímãs presos ao chão
Feminina e viril, doce e firme, errante e encantadora. E claro, jamais desistente.
Comparada a mim, ressalvo e errante e jamais desistente. O restante é instável ou imperceptível, ou instável e imperceptível. Vai-se saber...

~ Marília Alves | 21:53

Domingo, Janeiro 08, 2006

::Esse, aquele e aquele outro

O coração que enxerga sem olhos, que toca sem tato, que diz sem palavras, que abraça sem braço, que pranteia sem lágrimas; O coração que sangra, que chora, que pede, que contrai e dilata é o mesmo coração que bate, que pára, que acelera e descompassa. É a Caixinha Saudade, a âncora sem apara, o belo e o secreto, o abstrato e o real, o sábio e o cego.
Ele que é mudo e fala, que é cego e vê além dos olhos, que é surdo, mas sente, ele que engana e trapaceia, que é o porta-voz do corpo, mas que contradiz a voz de fora gritando por dentro.

Esse, é o mesmo daquele, sabe? Àquele que diz não quando é sim e diz sim quando é não, que ama quando não deve e quando deve não ama, aquele que quer não querendo e diz que não quer quando só quer, aquele que desgosta gostando e quando gosta diz não saber do que se está falando.

Esse que é o mesmo daquele e com certeza igual aquele outro...
-Aquele outro?
Sim, aquele outro que diz "chega de emoções!" esperando mais do dia que vem, que diz "por favor, não volte" desdenhando vontade de te ver logo mais, àquele que embala no pranto sorrindo por fora, que diz "volte sempre" quando simplesmente não quer que você vá...

~ Marília Alves | 17:29