Quarta-feira, Março 28, 2007

Aprendi a enfiar tudo embaixo do tapete e, como todo amigo que é amigo avisa, mesmo sem ser ouvido, e nisso eu não sou diferente, aviso: não confie no meu humor, ele esconde mais sobre o céu e o oceano do que o próprio mistério. Confie, pois, em tudo o que eu não digo, é tudo o que sou.

Tem havido mais sal na água e menos doce no dia. Não no Dia, mas no dia. Até porque o dia nasce todo dia, mas o Dia já não nasce há algum tempo.

A água no olho, dentro e fora dele, e no pano; o doce no amargo não adoça a boca por muito tempo. Veja, observe que o verbo não é falar e sim escrever. Não que eu esteja pedindo confiança, e não que eu também não esteja. Tenho pedido muito. Ninguém ouve. Lê-se pouco as entrelinhas, vende-se muito pela capa.

Aprendi tanto sobre ilusionismo e pouco sobre mágica. Tenho o dom de me tornar invisível, insensível, indigerível, incompreensível, incompatível e desnecessária, mas o dom da mágica... Ah!, esse é mais que abstração, e o que vai além do porém eu ainda não sei. Eu não, mas o Dia sim. O Dia que não vem, e se vem, vem a galope em tropeços pela estrada esburacada, vive a cair do cavalo. Porém, antes cedo do que tarde demais, aprendi a mágica da paciência.

Eu disse que aprendi pouco, não nada.

~ por Marília Alves às 00:58 |


Segunda-feira, Março 19, 2007

Frágil. Quase como uma rosa despetalada. Inútil. Porto sem mar, sol sem lua.
São tantos sentimentos e eu coleciono vazio. Vazio de cores quentes, vazio de sabor agridoce, vazio de peso incalculável, de tamanho indefinido, vazio de fragrância antiga, vazio de dor irremediável, de sons agudos e surdos, como música que ultrapassa a barreira do som, atingem certeiro o coração e ali fazem sua morada.

Sons agudos, surdos e mudos resumem minha fala.

Eu tenho vivido como minha própria sombra, eu tenho sido qualquer coisa de intermédio entre amor e dor, tenho adormecido o dia e clareado a noite. Eu tenho sido qualquer coisa sem sentido. Eu tenho sido, de fato, qualquer coisa. E tenho no peito uma espécie de relógio atrasado que se esquece de despertar. Já não pratico o ritual diário de contemplar o dia, a vida, os tons e os ais. Já não me lembro da sede, da fome, da alma. Minha memória seletiva alimenta-se da sina, do sono, do mofo. Eu tenho esperado como quem espera milagres. Eu tenho esperado sentada.

Nasce o dia, nasce a noite, e eu sou o meio-termo que morre. Que dorme.

~ por Marília Alves às 02:13 |


Sábado, Março 17, 2007

E, pela primeira vez, ao olhá-la nos olhos o tempo não parou, a rotação não acelerou e os pés continuaram sobre o solo. O chão não me faltou. Vi teus olhos como olhos e nada mais. Não busquei meu reflexo, nem algum rascunho de lágrima, atentei-me apenas a admirar o brilho incrível que eles têm. Que lindo verde tem os olhos teus!

A tarde existiu o tempo que toda tarde existe. Nem mais, nem menos triste. A tua voz eu não confundi com o canto dos pássaros. Ah, e como cantavam aqueles pássaros mensageiros de paz! Teus cabelos permaneciam lindos e leves, voando ao passo do vento. Mas assim como o vento batia em teus cabelos, batia igual em todos os outros. Que de todo pareciam tanto leves quanto os teus. A beleza escorria por todos os cantos, antros, poros, meios e inteiros.

Tua boca não me arremeteu à fome da fruta, muito embora ainda tão vermelha fosse. Tuas mãos atravessando os fios dos cabelos permaneceram como um feito de encantamento. Encanto que de tanto efeito passado deu ao meu corpo tempo necessário para encontrar imunidade suficientemente resistente. O meu corpo funcionava como corpo, minha alma como alma, meu coração como coração.

A mágica estava ali, como sempre esteve. Sutil como brisa leve.
Pedi à brisa: leve. E ela levou.

~ por Marília Alves às 01:46 |


Segunda-feira, Março 05, 2007

Sei que poderá chegar o dia que ao ler isto eu não entenda o porquê de ter escrito. Tanto faz. Também não entendo agora. Escrevo porque é quase uma necessidade. As linhas que se seguem são, ainda, um verdadeiro mistério. Mas não faz diferença. Escrevo no ritmo do meu pensamento. Não escrevo tudo o que penso e nem com a mesma velocidade, afinal, se assim fosse, eu já teria um livro escrito do começo ao fim, em menos de dois minutos. Por que dois? Gosto de números pares. Ímpares apenas múltiplos de cinco.

Tenho mania, na verdade é uma espécie de vício, de questionar o passado. Sempre que o faço percebo que se o passado fosse diferente o presente também seria e, consequentemente, o futuro estaria incluso nesse quase-ciclo. Não é o que eu gostaria que acontecesse. É certo que não gosto de tudo da forma que está, mas tem tanto o que gosto de lembrar e de sentir... não seria justo.

Sou feliz com a minha bagagem de lembranças. Gosto de saber que tive infância. E não foi qualquer infância, não. As marcas espalhadas por meu corpo falam por si, cada uma tem a sua história, que eu adoro contar.
É engraçado lembrar o quanto me sentia esquisita aos quatorze anos por ser a única de todas as meninas da minha idade que ainda brincava (escondida) de bonecas.

Eu sempre me senti estranha, sobretudo perto de outras pessoas. Elas me pareciam sempre mais interessantes. E ainda parecem, mas...era diferente. Hoje em dia penso assim mais por ser um livro fechado do que por qualquer outra coisa. Antes era pelo simples fato de ter pessoas ao meu redor: falando comigo, andando próximas a mim, pisando no meu pé... essas coisas que todos fazem com ou próximos de outras pessoas. A impressão que eu tinha é de que ninguém sabia quem estava ao seu lado, de que cor eram suas roupas. E de fato era assim que funcionava. Eu sei porque também acontecia comigo, mas por motivos diferentes... eu tinha medo de gente, por isso não os olhava nos olhos, nem observava suas roupas. Coisa que só aprendi quando veio a adolescência, junto com a tão esperada menstruação. Enfim larguei as bonecas.

Comecei reparando as roupas: se as peças combinavam ou não. Depois observava os pés: se os dedos estavam no limite da sola ou escorrendo por elas, ou se o tênis combinava com todo o resto. Depois, eu observava os cabelos: o corte, o comprimento, o caimento, a cor da presilha ou do amarrador. Daí, eu olhava o contorno dos olhos: se estava com ou sem lápis, se tinha ou não olheiras, essas coisas. Acabei chegando à íris. Foi quando percebi que ter olhado e observado todo o resto primeiro foi perda de tempo - os olhos são espelhos da alma.

Quando dei por mim já estava aqui, com dezoito anos, escrevendo tudo o que leio no reflexo das almas alheias. Na minha também, claro.

Definitivamente os olhos não surgiram do barro... talvez de um cristal que fora lapidado, mas não do barro. Definitivamente.

~ por Marília Alves às 21:29 |