Segunda-feira, Abril 16, 2007
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Viva e deixe viver
É bom viver. Sem saber motivos, sem se preocupar com eles. É bom viver e saber que o doce é sempre doce, seja ele teu, seja do teu vizinho. É bom viver por viver: de pernas pro ar, cabeça na lua, coração no varal, preguiça balançando na rede. É bom viver mesmo nos dias cinzas e nos dias frios: o abraço é mais apertado, o beijo é mais demorado e os bons momentos, inesquecíveis. No frio as pessoas são mais elegantes, o amor é mais amor, o dois é um. É bom viver em dias tristes, é quando damos valor às pequenas alegrias. É bom viver de muito, é quando percebemos que vivendo com tão pouco é que a vida faz sentido. É bom viver de abraços, de beijos e de gentilezas, é quando vemos o valor do dia sem ter de esperar. É bom viver no choro, na dor, na cólica. Mas não por muito tempo, pois se esquece que é a vida, e daí vira morte. É bom viver em dias de chuva: -
Como é bom viver em dias de chuva! - um bom filme, meias vermelhas, brigadeiro de panela, guerra de travesseiros. Ou um beijo demorado no meio da rua: esquentando-se na saliva, sentindo um aperto na cintura, regando a vida de
sonhosreais. O romance é mais romance nos dias de chuva. É bom viver sozinho. A ausência quase palpável nos revela o que de bom se foi, o que de bom ficou, quem ficou, quem sumiu, quem não faz falta, quem tanto faz e tanto fez, o que nem se sabe mais. -
aconteceu ou eu sonhei? - A solidão faz milagres. É bom viver sozinho se, e somente se, o coração estiver de portas escancaradas. É bom viver em dois, três, dez, mil. É bom viver e ter amigos. A vida passa a ser plural, tudo fica cem vezes mais emocionante. É quando se permite aventuras. E quando se conhece irmãos. É bom ter com quem conversar, é bom ter quem ouvir, ter com quem cantar, com quem sorrir. É bom saber quem gosta de ti, assim, se pode dizer que esse gostar é uma via de mão dupla. Vai, mas também volta. Viver em silêncio também é bom. Mas, um silêncio significativo. O mistério apimenta a vida. É bom não saber quem é a menina que sempre se senta na mesma mesa da mesma cafeteria, usando sempre o mesmo laço de fita azul no cabelo. Parece sempre estar à espera de alguém, precisa estar bonita e enfeitada. De certo espera algum amor desconhecido. Vai ver morre de paixão é pelo moço bonito do caixa e, sabe que ele gosta de usar o tênis sujo e meias de pares diferentes, que sua cor preferida é azul e que ama laços, sobretudo laços azuis.
~ por Marília Alves às 22:59 |
Domingo, Abril 08, 2007
A mente não pára, o coração não pára, o tempo não pára. Por que, eu, deveria parar? Eu não devo. Eu não paro. O mundo não pára. Tudo se renova, muda, muda mesmo, a todo tempo. É um ciclo e faz sentido.
Escrevo quase cuspindo palavras. Cuspindo sem escarrar. Uma coisa rápida, indolor, confortante. Como respirar. Respirar é vital. Vivo porque escrevo, escrevo não necessariamente porque vivo, mas porque tento viver. Escrevo, também, em morte. Corpo sem alma também escreve: de olhos fechados e coração na escrivaninha. A morte é o aposento da vida - ora momentâneo, ora eterno.
Venero o irreal, sem medo, sem demagogia e discursos politicamente incorretos. Sou uma em mil, mil em uma. Tanto faz. Detesto matemática, não gosto de ser obrigada a pensar. Gosto de sentir, com ou sem alma. Ardorosamente fria, intensamente febril.
~ por Marília Alves às 03:47 |