Quinta-feira, Maio 31, 2007

- Cotidiano

Detesto confessar o quanto dói. Não há alguma coisa que doa em especial, mas tudo. Tudo dói. Igualmente e homogeneamente. Acordar é uma tarefa árdua. Toda manhã insisto em dormir mais uma hora do que meu corpo necessita. "Uma hora a mais, para a alma", justifico-me. Levanto já cansada. E me esforço em ensaiar sorrisos e bom-dias. Se me sinto farta, ninguém precisa saber. E não sabem. Aceitam qualquer rascunho de meio-sorriso com prazer, respondendo-me com uma boca cheia de dentes amostra. Sou um mistério e ninguém sabe que sou. Lástima. Do que me adianta ser um mistério sem méritos? Sou falsamente transparente. Todos pensam sorrir comigo enquanto sorriem de mim, e de minha falta de humor. Acho até que riem de mim com o mesmo prazer de que sorrissem para mim. Confuso. Confusa. Eu.

Com a chegada da tarde sinto-me, de certa forma, aquecida. Os cumprimentos não são falsos. Desejo-os com a mesma sinceridade que os demonstro: ora por sorrisos e bocas cheias de dentes, ora por olhares tangentes a outros olhares. A tarde me é de uma magia inigualável. Como que se me preparasse para a noite de livros, chás e solidão. Leio dois por vez. É como conversar com duas pessoas, assuntos completamente diferentes, ao mesmo tempo. Triste, eu sei, mas eu gosto.

À noite, sou prazerosamente triste e melancólica. Sabendo que acordarei com o mesmo humor, todos os dias. Justamente por isso.

É quase à tarde e ainda me sinto cansada. Cansada e um pouco feliz, entende?

~ por Marília Alves às 12:13 |


Segunda-feira, Maio 28, 2007

Assustadoramente seco: minha boca, minha pele e tudo o que é externo. Embriago-me em litros d'água. Não me lembro a última vez que bebi assim. Sinto-me bêbada. Tanto a ponto de me permitir observar o óbvio. Para mim uma madrugada de bebedeira tem efeito contrário ao de todos os que usam a bebida como desculpa para fumar, e do cigarro, um espelho de imperfeição e aflição. E tudo, cigarros e álcool temperado, válvula que aciona o falatório, - narrações da própria vida feitas em primeiríssima pessoa, com um quê de problemática mundial - substituindo lágrimas por cinzeiros emblemáticos entupidos de tocos amarelos e pó de cinzas. Uma tática sábia desde o tempo de meu avô. Falar, ser ouvido e esquecido no dia seguinte. O dia seguinte é apenas da estúpida dor de cabeça e da ausência de memória.

Eu não. Eu bebo líquido transparente, sem teor alcoólico e vulgarmente filtrado, para hidratar e pele e inundar a garganta. Poupar-me a fala. Para sentir-me humana, bio-logicamente falando. Fazendo assim, livro-me de efeitos colaterais e adio a morte. E, juro, permaneço embriagada. Covardemente embriagada. E com a boca seca. A boca, a pele, a respiração, a pulsação, a alma. Começou externo e me roubou qualquer lubrificação, qualquer pudor. Seca. Eu, completamente bêbada, completamente seca e um pouco apaixonada. Ultrapassei os limites de embriaguez para falar do assunto. Fica para uma próxima. Paixões me tomam muitas linhas e, além do mais, o assunto só é válido quando devidamente lubrificado.

~ por Marília Alves às 22:54 |


Segunda-feira, Maio 07, 2007

- A arte de envelhecer

Envelheci cedo, sempre fui muito precoce. Sentia antes de saber o que sentia e nunca gostei de dar nome às dores, as chamava sempre de "aquilo que dói e eu não sei onde". Nunca soube onde doía e, hoje, já não me preocupo em saber. O bom de envelhecer é que as coisas perdem a importância, os sentimentos não exigem classificação e o incômodo nas costas é uma desculpa plausível para permanecer deitada. Passo o dia em repouso absoluto e não dou satisfação a ninguém. Sou adulta. Mais que adulta, sou velha. Obesamente idosa. Não preciso mudar. Não preciso ter falas prontas e não tenho netos para contar histórias, o que é bom. É um espólio falar enquanto repouso! O silêncio tem de ser respeitado como qualquer tipo de crença em Deus. Aprendi tão cedo a falar pouco que acabo por esquecer o tom da minha voz. Só a minha risadinha contida que não me deixa esquecê-la. Dou pequenas risadas de tudo. Vejo uma propaganda nova na TV e rio, acho gozado não ver TV em preto e branco. Meus olhos se apaixonaram pelas cores, a primeira vista, não enxergavam mais nada, não percebiam os movimentos. Fitavam as cores, sem piscar, não havia nada que os fizessem mexer. Até pensei que tinham vida autônoma... passavam-se horas e eles não me obedeciam.

Sabe, adoro o fato de não ter que sair da cama. Tenho o mundo enquadrado à minha frente e, como não faço outra coisa que não seja repousar, economizo da aposentadoria e me presenteio com qualquer coisa que me encha os olhos de prazer. Dessas economias, dei ao meu mundo tela plana. Sou adepta a certas modernidades, algumas poucas.

É bom ser velha visto que a juventude está perdida. Sei que estou certa por passar a maior parte do tempo contemplando o meu mundo enquadradoemtelaplana. Porque sou velha, sei o que falo. Falo o que quero. Gente como eu, passadas dos 62 anos, merece ser ouvida, afinal, somos a sabedoria de poucas palavras. Qualquer dia desses amanheceremos pó e, nada mais justo que antecedendo ao pó, sermos ouvidos, digeridos e lembrados. Todos têm direito à imortalidade. Que seja este o seu legado: a hierarquia de sentimentos atemporais. E que no fim de tudo haja mãos que te afagues diante a não-circulação arterial e prantos que rompam o silêncio irremediável.

~ por Marília Alves às 12:43 |