Quarta-feira, Junho 20, 2007
- Ponto sem nó
Você sempre me dizia "não esqueça o casaco vermelho" e eu sempre esquecia. Pensava que sentiria frio, você me esquentava. Você e seu casaco branco completavam a mim e o meu vermelho desbotado. Você e eu, inseparáveis. Nossos casacos: feitos um para o outro. Andávamos nas ruas tropeçando-nos: você e seu sapato branco, eu e meu tênis vermelho. Vermelho e branco, você e eu. Inesquecível.
Agora, que desfecho meu amor! Culpo-me sempre por ter esquecido o casaco naquelas tardes, sinto por ter pedido calor, que era tão seu e que roubei. Sinto por fazer esgotá-lo. Que desperdício, meu amor! Tudo culpa de um esquecimento. Imperdoável, dizes. E eu sei. Como pude esquecer o casaco que nos completava o amor? Como pude abrir mão de uma parte tão especial e que fora tão nossa, até então. Entendo que tenhas, como eu, ter de pedir calor. Pois, o casaco branco, escondestes no sótão junto com as cartas que lhe escrevia. Uma por dia, lembras? Pois o nosso amor ganhou lugar junto a mofos e quinquilharias.
Você me deixava bilhetes na geladeira para que eu tivesse um bom dia. Era lindo. A tua letra quase ilegível. Eu me escondia no canto da porta e te via: pijama cinza e meias coloridas. Escrevia aos bocejos "Bom dia, meu amor. Fui à feira, não me demoro. Me espere para o café, trarei surpresas. Beijos da boca minha que é só tua." No fim, rabiscavas um coração meio torto. Ah, tão lindo o coração! Após escrever, tomava um banho, se vestia e me beijava a testa. Eu, claro, encenava sono profundo e lhe beijava os lábios em pensamento.
Hoje... Ah! Hoje, és doce. Mais do que quando minha, és inteira. Tens o calor que não é meu. Tens a boca que não é minha. Os olhos que não vejo. És feliz. Eu não, e o que importa? Viver um grande amor era o que lhe pedia, e vivi. Perdão, meu amor! Devia ter ouvido quando ainda me vias. Perdoe-me o erro. Dê-me um último beijo, me escreva um último bilhete e mostre-me os teus defeitos. Não lhe pedirei calor, prometo. Uma última vez para que te esqueças, para que haja fim.
"Bom dia, meu amor! Fui embora levando o teu coração comigo, não quis te acordar para não ter que te ver chorar daquele jeito carente que só tu sabes o quanto me dói. Hoje fará frio, vista o casaco vermelho.” Aceitá-lo-ia assim. Nem faria questão do coração, ele seria sempre teu. E você saberia.
Sempre tua, pela última vez.~ por Marília Alves às 02:10 |
Sexta-feira, Junho 08, 2007
- Desabafo.
Estou no limite. No limite de dor, no limite de ausência e no limite de platonismo. Ora! Seria tolice minha dizer que também estou feliz, neste mesmo parágrafo e neste mesmo texto, pois não há limite para as coisas boas. E não tenho necessidade de desabafar alegrias - elas simplesmente exalam, falam por mim. Nunca se ama o necessário, nem muito o suficiente para que se esgote o amor. Nunca se é feliz o suficiente embora, às vezes, a felicidade seja indescritível. Mas, chora-se demais, sofre-se demais, machuca-se demais. E, para tudo isso, há o limite. Que se extrapolado tende tudo ao suicídio. Não me permito dor sem aprendizado.
Tenho 19 anos, dezenove anos de coisas demais. Coisas que nunca foram devidamente observadas, tampouco reveladas. Vivi precocidades e retardamentos. Vivi muito e pouco foi contado. É irrelevante contar agora. É irrelevante lembrar agora. Pelo simples fato de ser passado. Deus!, por que dói tanto o passado?
Aprendi cedo a usar disfarces. Aprendi cedo a esconder o mundo em mim, em órgãos que eu nem sabia que existia. Se existe algo em qu'eu concorde com os "céticos de jalecos brancos" é que a todo impulso externo o corpo reage de uma forma diferente. É o blábláblá da ação e reação. Sou recheada de pequenas doenças, doenças que não aceito. Porque não acho justo deixar de fazer mal aos outros e me mutilar por dentro. E não acho justo expor aos outros o meu mundo de medos infantis. E, se quer saber, sim: eu morro de medo de escuro e acredito em monstros. Apavoro-me só em dizer, temo que eles leiam e venham me assustar. Escuros e monstros interiores são os que machucam mais e, sem a inocência de criança, torna-se ridículo externá-los. Eu choro em posição fetal e converso com o espelho. Quando sinto vontade de abraçar, me abraço ou abraço o travesseiro. E por meu travesseiro eu morreria. E por ele, eu mataria. Ele, de tanto me fazer companhia já é a minha versão coisificada. E quando eu morrer enterre-o comigo. Não o quero aqui justo quando estarei mais sozinha. E sei que ele não irá querer ficar.
Confesso que já tentei suicídio e gargalhei bastante por não conseguir. É ridículo achar que a morte é o alívio da vida. É o que se é, vivo ou morto. Não acredito na morte da consciência. E acho suicidas corajosos, covardes. Acho egoísmo pular de uma altura considerável, se entupir de remédios, apertar o gatilho contra si mesmo. E acho ridículo quem escreve cartas para justificar tal idiotice. Se for para ser egoísta, que seja. Mas que seja inteiro egoísta, e que pule para a morte olhando o próprio umbigo. E cá entre nós: suicidas, somos todos. Suicidas covardes que merecem respeito.
O que é bom começa com dor. E é doendo-me toda que desafio-me à fragilidade de pôr-me do avesso. Se alguém leu, lamento. E se não leu, novamente lamento. Lamento tudo que é do mundo.
~ por Marília Alves às 01:13 |