Quinta-feira, Julho 26, 2007

- Desnecessário

Sentimento é algo que foge a qualquer definição e tentativa de explicação. Se eu soubesse o porquê de sentir o que sinto, simplesmente não sentiria. Já joguei tanta coisa no lixo que, para mim, não haveria dificuldade nenhuma juntar isso às cascas, restos e frutas podres, e jogar todo aquele monte de lixo em seu devido lugar, que agora me parece gozado ter o mesmo nome. Dane-se. Eu jogaria todo o lixo - interno, externo, líquido, sólido e gasoso - no lixo. Se eu não amasse, odiaria. Ódio é o contrário de amor. Jura-se ódio eterno com a mesma carga sentimental que se jura amor eterno. Ambos matam.

Confesso que morrer de amor não seria de todas as mortes a pior. Acho até que eu seria feliz. Haveria de ser uma morte pensada, na hora certa. Beirando a loucura. Todos que lessem meu atestado de óbito se matariam também. Porque morrer de amor é bonito. Quem morre de amor é digno de buquês de rosas e tulipas doces, e não de coroas de flores murchas. Pois quem morre de amor é romântico. E quem ama sabe que se torna eterno, desde que diga ao ser amado que o ama e que se mate depois. Ah! Aí sim, jamais será esquecido. Seria lindo morrer aos pés do ser amado, tendo no bolso uma rosa vermelha e uma carta apaixonada. Cartas e rosas embebidas pelo sangue do amor-súbito. Lírico, mórbido, épico, digno.

Eu, apressada que sou, antecipei a morte. Não estava preparada para revelar-me em sentimentos, mas afogava-me em palavras não ditas. Não resisti. A morte tornou-se questão de sobrevivência. Morri de amor. Uma, duas, vinte vezes... Ah, tantas e tantas vezes que me perdi em alguma delas. Sou assim, vou me dividindo em amores até me perder. Vou me suicidando e me dissolvendo ao ser amado até quando não mais existir amor, amado e amante. Morri de um amor qualquer. De um doce aguado. De algo que se assemelha a água com açúcar. Desse amor aguado que ama pra não odiar.

~ por Marília Alves às 22:32 |