Sábado, Setembro 29, 2007
- Fim do Mês
"Meu braço, não sei qual é
A gente se misturando, feito leite e café"
Esperei quase o fim para escrever – escreve-se melhor após assistir aos fatos. Escreve-se melhor fazendo-se sujeito de algo, não sonhador de ações. Sinceridade: eu não sei escrever. Também não sei explicar porque insisto e, tampouco, o que é que lateja incessante em meus dedos, e me toma inteira em um gole só. Sinto-me álcool. Não sei porque esta comparação, que me veio como
flashback do Martini ingerido na noite anterior – noite de sono ainda perdido; não sei porque o tempo tem passado assim, rápido e cruel. Por que o tempo passa?
Setembro. O Mundo Azul gira seco e quente. Setembro. O Meu Coração gira azul, quente e seco. Meu Coração: o mundo do meu mundo. Mundo: o coração de todo mundo. Todos têm um miolo, um ser pulsante dentro de si, – que não se sabe de onde vem, mas faz-se feliz por tê-lo ali – um centro de acúmulo de coisas, com as quais não se sabe ao certo o que fazer. Temos tanto dessas "coisas", temos tanto de tantas coisas. Temos tanto de tantos! E tantos nos têm, e não sabem.
(E você aí, raro leitor, sei que, ao ler isto que acabo de inventar, desejou um "cobertor de orelhas", como eu ao escrever.)
Vamos doando-nos, a cada abraço dado; e colhendo-os, a cada abraço recebido. No fim, já não sabemos quem somos. No fim, já não nos importamos com isso. E, por fim, queremos permanecer sendo este tanto de gente que nos aqueceu e que invadiu nossos mundos. E, fim do fim, o todo é um, e a solidão é um frio metafísico que se cura com abraços completos, eternos e bem-laçados.
Talvez minha opinião mude, visto que o mês ainda não terminou. Talvez não mude, visto que o frio metafísico é o elo entre dois. Dois é um. Que seja um!
~ por Marília Alves às 15:43 |
Domingo, Setembro 23, 2007
- Enquanto você vai e tudo fica
(Para que tu não te esqueças e sorria)
Desde que o mundo era mundo, sou tua. Antes de nascer, de ser e de não ser. Sou tua desde sempre. Meu coração sempre veio antes dos pés e da cabeça, ouço-o como a um oráculo. Sinto-o mais que acelerado, – compasso e descompasso, compasso e descompasso – batucando um samba de amor. Vive em mim. És-me inteiro, sem defeitos e qualidades, acima dos julgamentos do mundo.
Ver-te foi olhar no espelho da minh’alma. Vieste como luz em noite escura, como barulho em calmaria. E, a galope, chegaste. Herói apenas – de carne, osso e lindos cabelos. Vieste para o mundo e os quatro elementos. Filho da terra, da água, do fogo e do ar. Sua única lei: a liberdade; seu grito de paz: o amor. Presenteia com asas a quem ama. Amo-te como pássaro a um ninho.
Dormente, acordei e te senti ao lado. Assim, de repente. Percebi que, antes de ti, não havia nada, somente corpo dolorido e mundo latejante. Quase não se via alma. Voar já não existia. Os sonhos repousavam junto a nós, em travesseiros de penas.
Bons dias, tardes e noites… como eu te queria! Finda espera. Abraça-me!
~ por Marília Alves às 21:02 |
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
- Ah, se todos fossem iguais à vocês!
(Dedicado à Lara)
Clarice é para mim como roupa larga, dois números maior. Encobre e aquece, mas excede. Sou o rascunho malfeito de suas metáforas, o retrato de seus personagens borrado de nanquim. Sou assim, um protótipo de menino poeta. Que tem sonhos e os ama, mas espera fazer-se maior e homem poeta para substituí-los por realidades.
Sou o acabamento daquilo que é sem forma. Sou tantos, tantas – doces, amargos, agridoces, insossos, temperados. Sou tudo e brinco de nada. Acendo e apago a luz como criança peralta. Sou criança adulta, nada culta.
Dou aos meus livros, músicas, sonetos e poemas preferidos minha tradução. Faço-os meus e sinto-me parte deles. Dizem que é egoísmo. Digo-lhes: é inevitável. Vejo-me ali, nua e crua, traduzida em letras e versos, como não mesclar-me a eles? Impossível!
Sinto as saudades de Mário, sou a confusão em cristais de Clarisse, a bossa de Vinicius, o sentimentalismo de Oswaldo, a leveza melancólica de Drummond, a intensidade de Florbela, a paixão ardente e assassina de Chico, as cariocas de Tom, a velhice de Cecília. Sou todos eles: meus poetas, profetas, sambistas, letristas, amados… sou artista por osmose.
~ por Marília Alves às 20:59 |
Domingo, Setembro 02, 2007
- Eis a questão
Despir-se, examinar-se a frio. Olhar-se no espelho sem bracejar, bocejar ou cuspir. Exercício de não-sentimento. Um sentido por vez: visão, audição, olfato, tato, paladar e, finalmente, o sentimento – memória sensitiva de todos os outros.
Enxergar-se do fio arrepiado dos cabelos ao dedo mindinho do pé; do sórdido ao apaixonável; do simulado ao real; do desnecessário ao vital; do corpo à alma. Mantendo-se coisa examinável, protótipo de cadáver vivo.
Ouvir-se sem selecionar frases, clichês ou trechos de poemas. Ouvir-se como a um vento que não soa. Sem sentir, nem falar. Agora, sem enxergar. Ouvir-se, simplesmente.
Cheirar-se. Apreciar o odor ou o perfume da própria alma. Olhos vendados, ouvidos tapados, voz contida. Apreciar o aroma, mantendo-se insosso, sólido, morto-vivo.
Tocar-se em movimento lento e firme, partindo da dor do cérebro e chegando à dor do peito. Tocar-se do objetivo ao subjetivo, do íntimo ao coletivo. Cutucar-se nas feridas e percebê-las sangrarem-se indolor. Mortificando os demais sentidos.
Ingerir-se sólido, líquido, doce ou salgado – sem mistura de sabores. Ingerir-se quase recuperando os sentidos, mas ainda sem retê-los. Dançar-se pelo céu da boca, impulsionando-se com a língua. Mastigar-se com os dentes da alma. E, enfim, engolir-se, recuperando os sentidos, incorporando-os à sua versão digerível.
Sentir-se nu; enxergar-se nu; ouvir-se nu; cheirar-se nu; tocar-se, intimamente, nu. Abrir ou fechar os braços para si mesmo, ninar ou ignorar a si mesmo. Chorar, esbravejar, cuspir, – ou só escarrar – sorrir ou, simplesmente, se desencontrar. Apresentar-se a si, com ou sem prazeres.
Eis tu, en-fim.
~ por Marília Alves às 21:11 |