Sábado, Dezembro 22, 2007

- Espectro

"Me perdoa meus apegos e minha falta de auto-estima
Eu sou desprotegida porque sou menina
Ninguém pode me ver chorar
Vou chorar escondida,
quero a máscara mais bonita"


Faz-se necessário dizer que alho é alho, e que caralho é caralho. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, não adianta querer misturar óleo e água porque, apesar de bonito – e só é bonito pra quem vê a beleza das coisas simples – não se misturam. E se não mistura, eu não quero. Se não for pra colidir, não me encoste, não me olhe. Tenho até evitado espelhos – aquela coisa que te reflete, mas não é miscível, não é aglutinável; aquela coisa cruel e triste; aqueles defeitos vários e acentuados, refletindo numa tela de vidro – para mim, tudo o que quebra é de vidro. Uma arte de mau gosto. E eu tenho gosto apurado. Gosto da arte como fuga da realidade – tentativa de acreditar que a arte imita a vida e a vida imita a arte, a maneira de criar um mundo paralelo, onde a vida é a arte, vice-versa e ponto final (.)

Se ao menos os espelhos mentissem (quero um espelho mais feliz), se ao menos eles exalassem cheiros – aqueles do coquetel de flores, escondido no íntimo da alma (e olha que alma já é quase o mais íntimo do que se tem por dentro). Eu queria menos olheiras, mais peito, alguma bunda e um sorriso menos amarelo. Queria também não ter barriga, não ter umbigo e ter a postura ereta. Mas espelhos não mentem. Arte de mau gosto! Você chora e ele grita que você chora. Você ri e ele ri do teu riso forçado. Você se pinta e ele revela que tudo o que você é são tentativas de ser alguma coisa, qualquer coisa. Máscaras. Vivemos em eterno carnaval e quartas-feira de cinzas. Andar na rua é desfilar fantasias, chegar em casa é reduzir-se em cinzas do que se é na rua.

Você é personagem e o espelho é você. A confusão e a miscigenação do caráter fictício com o real são combinações perigosas, quase como uma combinação suicida de drogas e "nonsense". Alma é alma, corpo é corpo. Alho é alho, caralho é caralho.

~ por Marília Alves às 23:19 |


Domingo, Dezembro 16, 2007

- O amor nasceu no dia do seu aniversário

Ah, eu estaria, sim. E ficaria também. E não sairia, nem se me pedisse, nem se me mandasse. Porque é assim, essa coisa que invade: tenta-se empurrá-la pra debaixo do tapete, ela amanhece emaranhada aos fios desalinhados dos cabelos; tenta-se jogá-la janela afora, ela volta e acerta o peito – e fica nele, e se incorpora a ele, e se cristaliza nele. E gruda mais que chiclete no cabelo.

Porque amor não é questão de merecimento, não é questão de sabedoria e maturidade, não é questão de querer ou não querer – até porque, se ama justamente a quem não se queria. Amor não nasce da reciprocidade, não nasce do instante em que as mãos se entrelaçam numa mesa de restaurante. Ele já estava ali muito antes das mãos, dos olhos, da boca, da língua, da saliva, da brasa. O amor veio com o alimento, pelo cordão umbilical. O amor é o alimento. É o que uniu corpo e alma. É a invenção daquele coração infantil, com uma bundinha fechada em "v", que é tão comum de se ver por aí. É o que faz daquele coração parecido com uma mão fechada rodeada de veias e artérias, um veículo de pulsação de vida.

É por isso que, muitas vezes, quando vêem em você um alguém a mais, você vê em alguém o amor da sua vida.

~ por Marília Alves às 20:31 |


Sábado, Dezembro 08, 2007

- Da matemática da dor

"E agora, o que eu faço depois de sorrir?
Com teu sonho incapaz de me ouvir
Me acorde e depois se vá."


Dessas poções púrpuras de para sempre de que eu costumava me encharcar. Desse visco, desse risco, desse mar infinito. Desses olhos, desse espólio, dessa dor. Desse dia que só deu a luz com cesariana, dessa noite que perdura por 210 horas e 12.600 minutos. Desse silêncio. Desses segundos que vão como o aborto do afeto, desses adjuntos solitários. Dessas mãos que esmagam o peito, desses beijos de morte no pescoço, desse exaspero de promessas. Dessa falta insana. Dessa navalha afiada que é o querer demais. Dessa primavera glacial, desse arrepio. Dessas borboletas que caem ao chão, na tentativa de alçar vôo.

Meu pequeno caminho, de grandes e de doces encantos, se estreita. O líquido púrpuro desce rasgando a garganta, chega ácido ao coração. Coração e estômago batendo juntos – gastrite, enfarte, sopro e úlcera. Tosse e rouquidão. Velhice – pois aquele que sem amor permanece, tem o espírito 20 anos mais senil, em cada busca de respirar. E há cada mililitro de gotas de silêncio, desses que beiram a paz dos justos e as dores dos levianos, uma célula em mim morre. O silêncio ecoa, essa sutil mentira de paz cercando os quartos, os elevadores e a quem for.

Basta um olhar furtivo, um sorriso de canto, algumas flores comestíveis. Basta a ilusão de compreensão. Bastam palavras, canções e trovador. Bastam 32 minutos e 12 segundos de frases tímidas, ao fio do telefone. Basta apenas existir para me matar.

O meu pacote de amor e restos humanos. O meu silêncio molhado, pingando na tua ausência seca. O meu potinho de carinhos doces, rodeado de formigas e moscas.

A menina que habita em mim, hoje não acordou. As tuas paráfrases dos poetas, hoje não a despertou. Dorme, menininha. Sonha sonhos cor-de-rosa, passeia no céu e no mar, apanha o mundo no teu sonho, menininha. E não deixa ninguém roubar. Olha, não reparta com ninguém os teus sonhos de menina. Dorme e sonha, menininha. Sonha, é tempo ainda. E ao acordar, menininha, pegue-me pelas mãos e me leve nas asas da borboleta. Porque nesta vida, menininha, não cabem os sonhos.

~ por Marília Alves às 12:17 |


Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

- Coração de balão

"Meu coração cresce dez metros e explode."

Foi o tempo de piscar e perder o sonho. Foi o tempo de morder o canto da boca e o doce que havia nela esvair-se da língua. Você veio, e como todos os que também vieram, se foi. Veio diferente de tudo, chegou tão devagar que eu nem senti. Foi. Foi e ficou. Foi e ficou em mim, foi e me levou de mim.

Fique aí. Não saia. Não venha. Fica e faça da tua vida coisa melhor de viver. Fica comigo daí também, já que dizes que te faço bem, que daqui eu arranjo um novo eu pra ser. Um eu sem você, mas, quem sabe, um eu feliz. Que essa brincadeira de eternidade já doeu. Já deu.

Logo eu, que te quero tanto, que nem sei o que fazer com tanto querer, já não suporto mais.
Meu coração é pequeno, do tamainho de um botãozinho de flôr.

"Estúpido, ridículo e frágil é meu coração."

~ por Marília Alves às 21:32 |


Sábado, Dezembro 01, 2007

- Epidemia

"Deixa minha alegria
Ser sonora, estrepitosa,
Piegas e quase vulgar.
Que abuse de risos
E esqueça de cérebros."


Ríamos, todos, um riso meio harmônico e nada contido. Brindávamos aos defeitos, aos desencontros e ao quase-amor. Ríamos quanto mais os músculos envolvidos suportassem: alto, forte, quase arrebentando as cordas vocais. Era um riso que fazia rir a quem passasse. Os apressados, paravam. Os distraídos, se atraiam. Os curiosos, se aproximavam. Os tristes, davam de ombros. O garçom, ah, esse sorria com os bem-vindos dez por cento. Seria uma noite de encher porquinhos.

Meio da madrugada. Os tristes se foram. Todos os que ali ficaram, ficaram a sorrir e a brindar conosco à doce vida – que quando vivida é amarga.

Fim de expediente. Todos iam sorridentes e embreagados.
Despedimo-nos com sorrisos, claro. Mas ninguém sabia o porquê.

Já no carro, lembrava-me da noite contagiante. Lembrava-me dos risos e queria chorar.

~ por Marília Alves às 01:03 |