Quarta-feira, Março 26, 2008


- Reinvento

"Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração - em todas as partes palpita."


Agora é por mim. Se doeu foi porque permiti. Se não dói mais e nem cócegas faz, é por mim, só por mim. Agora eu quero mesmo é música no máximo, bebida gelada e esmalte descascado. Toca pra descer e canta pra subir!

E você, vá dizer à vida que só estou pra ela e pra mais ninguém. Vá logo dizer que acordei dos anos que dormia, que o meu passado não me domina e que a lua é que me alumia. Vá, corra, e diga ao mundo que sou tua, só tua e minha. Que eu gosto é da verdade nua!

Quero do mundo os cantos de paz e euforia. E de tudo o que é feio, uma coisa bonita. Da festa, eu quero o brilho; do enterro, a agonia; do carnaval, a purpurina; na quarta-feira de cinzas, usar fantasia. Quero o doce que amarga e o amargo que azeda. Quero o trânsito em horário de pico, pra dizer a toda essa gente apressada um boa-noite não estressado; quero a chuva se misturando com a fumaça do carro. Quero o choro que inunda e a alegria que transborda. Nada de restos, metades e pedacinhos, quero inquietudes e infinitos. Quero o todo, a jóia do lixo. Quero, no meu quarto, pinturas abstratas, caixinhas-saudade e várias cartas espalhadas. Quero cheiro de chuva pela casa, cortinas voando janela afora e um par de asas. Do chuveiro, quero o alívio imediato. Quero torturar os pés com sapatos apertados e libertá-los, para encontrar a felicidade barata. Quero agitação na calmaria e o oposto também. Quero a magia reinventada.

Amor? Ah, eu quero sim! Daqueles tipo sonho de padaria, salpicado com açúcar de confeiteiro. E mais duas porções deste "bem-amado" aqui, uma pra comer agora e a outra embrulhada pra viagem. E, por favor, em cima, um pouco de melado e confeitos de aniversário. E da alma, extraia até a ultima gota do último gomo e traga-me o suco. Nada de bater no liquidificador e nem sequer pôr um cubo de gelo. Sirva-me, mas antes tire o tanto que te sirva.

Que no céu a nuvem aconteça e do canto dos pássaros, venha a mais sincera poesia.

~ por Marília Alves às 20:24


Sábado, Março 15, 2008


- Da mesa de um restaurante

Há de convir comigo que todo autoconhecimento é ridículo. Um ridículo sofisticado, mas ridículo. "Olha, eu não como cenouras. Passei a vida inteira empurrando-as garganta adentro até me lembrar que há dois anos eu já não moro com a minha mãe. Vou pedir essa 'salada verão', mas, por favor, sem cenouras." Disse um homem, aparentando 30 anos de idade e 28 anos de amor materno excessivo, direcionando a conversa ao garçom que lhe atendera. Um homem que virou homem há dois anos. Achei esse episódio de um ridículo primordial. As pessoas têm umas formas engraçadas de expor o nível de seu autoconhecimento. Por exemplo, eu, que escrevo conversas alheias e não-autorizadas para dizer: eu me conheço o suficiente para afirmar que as pessoas me atraem. Olha, eu gosto muito de observá-las em seu cotidiano.

~ por Marília Alves às 21:51


Sexta-feira, Março 07, 2008


- Na terceira pessoa do singular

"Existe aqui uma mulher
Uma bruxa, uma princesa, uma diva
Que beleza
Escolha o que quiser"


Guarda coisas para ler, pra quando se esquecer, pra quando voltar à forma inteira, coisas que não dirá aos netos. Ela se guarda para ocasiões especiais, como se guarda vestidos excessivamente decotados e jóias raras. Tudo o que precisa, coitada, – e como odeia precisar! – é de um igual, de um assunto em comum, de uma música pra ser sentida junto, de um acorde bem feito que a faça chorar. O que precisa – argh! – é de não se sentir tão única. “Única”, dito assim, até parece especial, mas há tanta coisa por aí que só parece sem ser! Ela precisa de flores recém colhidas na cabeceira, de cores quentes, de respirar fundo e de frutas da estação.

Mas decidiu não pensar. Não por estar cansada, apesar de que há muito já não sabe o que fazer com tanto cansaço. Mas não, não é por isso que a partir de hoje não pensa mais, é simplesmente porque pensar dói. Quem pensa demais vive de menos e ela quer viver demasiadamente. E para isso, tencionou-se à intensa abstração e faz cara de nada pra tudo. Não há o que a surpreenda, e para ela tanto faz que as coisas do mundo existam. Deixou de ser humana, e porque quis. Só porque estava farta de todo este mundo humano, onde tudo se resume à superfície, onde se troca punhadinhos de carinho por outros punhadinhos de carinho e isso basta. Para ela, tudo chegou tão perto, – tão perto!... – sem realmente ser. Ela e os seus quases que a fazem tão metade, que preenchem seu esboço de vida.

Ela é só mais uma, alguma, uma beltrana, fulana de tal. Vazia Ecoando da Silva, este é seu nome. Tome cá o cartão.

~ por Marília Alves às 19:24


Domingo, Março 02, 2008


- Em preto e branco

Eu não me sinto parte de nada em você ou para você. Nem na tristeza, nem na alegria e nem em momento algum. O que te dei foi mesmo tudo o que de melhor eu tinha. Tinha, eu disse. Porque agora eu me sinto vazia. Pessoas vêm até mim em busca de qualquer boa coisa e saem vazias, mais vazias do que quando chegam.

Enquanto eu fechava a porta, você saía pela janela. E daí que as pessoas me perguntam se eu sinto ódio ou desprezo, por haver dado amor a alguém tão igual aos alguéns que, a essas horas, discutem qualquer coisa desinteressante numa mesa de bar. E eu me esforço em dizer que não, que não sinto nada; nem paixão, nem desamor, que o que eu quero mesmo é desapego, sossego e uma cama de casal para dormir com vinte travesseiros. Que sou da geração dos que amam pouco e não se apegam; dos que são intensos, pegam fogo, mas não ligam no dia seguinte. Que te ver, caso eu visse, não me faria nem cócegas e nem agulhadas no ego. Mas a verdade é que eu sinto algo, algo que eu nem sei o nome, que beira a saudade com um algo mais – aquele algo a mais que a todo o tempo faltou em ti. E há rumores de que ainda falta.

O que é difícil não é escrever muito sobre isso, – isso, sim, porque não é real e você só existe dentro de mim – é dizer tudo o que eu sinto escrevendo pouco. Porque há sempre um discurso de cinco horas preso num super-nó-de-garganta, quase um câncer, pronto para ser expelido, o discurso dos amantes mal-amados, dos amores mal vividos. Ainda que seja um amor romântico entregue a ninguém, existe a necessidade de livrar de toda a dor que por ele senti. Ainda assim, as palavras morrem presas na garganta. São tantas palavras, letras nadando em mim, todas escritas em língua ainda não inventada. E eu temo ser incoerente. Temo dizer, aqui e agora, que te amo e, ainda na mesma linha, que sinto muito. Ah, eu sinto mesmo muito, tanto, que por te amar demais, e por ser um amor assim, só teu, hoje entrego aos que me procuram, tédio com vista para o mar. E é tudo o que há em mim. Fico sem nada, num silêncio que ecoa. E toda beleza que há, eu enxergo em preto e branco.

~ por Marília Alves às 01:20