Domingo, Maio 25, 2008
- Pausa
Empate. Eu comigo deu zero a zero. Por hora não sou capaz de nada – de surpreender, ser surpreendida. Nem de contestar. Não quero. Estou mancinha, macia, volúvel. Facilmente transponível. Estou. Essa é a hora: influenciem-me.
Os olhos já estão vendados.
~ por Marília Alves às 19:09 |
Segunda-feira, Maio 19, 2008
- Des-medida
"Quero viver de amor
De amor, me colorir
Abrir as asas pra você,
Meu colibri"
Foi no momento exato. Você insistiu e hoje eu sou imensamente grata. No primeiro momento tive vertigem, até sentir as suas mãos firmes nas minhas. O encontro das mãos sempre me deu segurança. A nossa promessa veio sem palavras e de mansinho, como nós também chegamos. O juramento estava feito: não nos abandonaríamos, mesmo que isso nos custasse a vida. Era bem provável que um dia teríamos de escolher a incerteza em detrimento da comodidade. Dava medo, mas não chegamos crus nem pouco vividos. Chegamos intensos e com sede e com frio e com fome. Chegamos com gana, logo sendo companheiros, braços, ombros e ouvidos. Logo nos abraçamos, nos esquentamos e nos cuidamos. Tudo com urgência de soldado ferido em guerra, que volta pra casa ainda sangrando. De fato vivíamos em guerras, cada um lutando pelo seu cada qual. Olhávamos do alto como as coisas eram pequeninas lá embaixo, tínhamos receio. Mas tínhamos mais, tínhamos o céu. E ainda mais: tínhamos a nós. Depois da curiosidade de ver o mundo que enfrentávamos de cima, nos olhamos nos olhos, e lá estava a nossa força. Pulamos. Soltos no ar, dançamos com o vento, brincamos com os pássaros. Sempre, sempre de mãos dadas. E de olhos atentos e de corações em compasso.
E não importa o que virá, a promessa está lançada. Seremos eternos e isso basta. Nada de medidas, de tamanhos, de larguras e de pesos. Ficaremos, além do tempo. O sol dos seus olhos é o único que não me cansa as vistas, o único que não me queima além da conta. Fico vermelha, mas é de vergonha. É encantamento.
Vida, bem-vinda em mim.
~ por Marília Alves às 23:00 |
Domingo, Maio 11, 2008
- Retrato falado
Moro em algumas caixas, em algumas cabeças, embaixo de alguns pés e dentro de corações povoados. Disputo espaço com o que é relevante e raramente venço. Sei ser pesadelo, sei ser sonho. Eu consigo até ser real, de vez em quando. Sou de brotar na memória em dia de congestionamento. Sou de desfazer em retalhos, de ser reduzida em pedaços. Sou às vezes a menina sem nome, a esquisita do apartamento “mileduzentos”. Sou a riponga que deixa o elevador cheirando a incenso, o passatempo do senhor Constancio. Sou a louca que vai à padaria de pijama e pede pães dizendo “o de sempre”. Sou a que só come pães moreninhos e bem quentes. Sou o cheiro de sabonete depois do banho, a toalha molhada em cima da cama, o pijama amarrotado de manhã. Sou as olheiras, as bebedeiras, os sucos de maçã. Sou o colo, o pólo, um cubo de gelo. Sou o oposto, o imposto, o avesso. Nunca sou porto. Sou o número de telefone errado, a secretária eletrônica, o correio atrasado. Sou mais inverno que verão. Mais outono que primavera. Mais fogo que caixão. Sou mais feia que bonita. Mais verdade que mentira. Sou de abraços, carinhos, aconchegos. Sou de liberdade. Sei fazer sofrer, mas não faço. Sei fazer chorar, mas não faço. Sei fazer morrer e me mato. Sei ser descartável, mas não gosto. Sou de dançar miudinho, de chorar baixinho, de sentar no cantinho pra ceder espaço. Sou de sussurrar, de cantar, de sonhar. Sou a do olhar pequeno, do amor miúdo. Sou de sustentar o sonho, de soprar o vento, de soltar os pássaros. Sou a do viver quietinho, a que não dá trabalho. Moro em favelas, castelos, nuvens e embaixo de asas de coruja. Sou mais de filme que de novela. Mais de queixo que de costelas. Mais de água que de terra. Mais de vento que de terra. Mais de mãos do que de pés. Mais de maios que de julhos. Sou mais de sonhos que de signos. Mais de vontade que de destino. Sou mais coração que cérebro. Mais de tropeços que de troféus. Sou mais de teatro que de cinema. Mais de cinema que de corrida. Mais de corrida que de academia. Sou menos alegre e mais agressiva. Menos amável e mais esquecível. Perecível, eu sou matéria. Sou mais de livros que de tragédias. Mais de quietudes que de modernos. Mais de solitude que de solidão. Mais de solidão que de aglomerados humanos. Mais de saudade que de vivência. Mais de infância que de tolice. Mais de sede que de fome. Mais de dentro que de fora. Um pouco humana, um pouco não-existente. Pairo entre o pálido e o branco. Prefiro chinelos à tamancos. Sou menos de levianos e mais de corações quentes. Sou mais de menos e menos de mais, sou redundante. Sou mais de perder que de roubar. Moro em poços, esboços, fundos de gavetas. Eu sou lenda.
~ por Marília Alves às 01:32 |
Domingo, Maio 04, 2008
- Desconstrução
Também acho que eu era mais sensível, Gustavo, e também mais alegre. Roubaram minha alegria. Não concordo quando você diz que não nos conhecemos mais. A gente nunca se conheceu de verdade. Brincávamos e enquanto era só isso, diversão, as coisas davam certo. Eu fui feliz. Eu fui realmente muito feliz. Mas, veja bem, amor. Amor? Tudo bem, amor não. Veja bem, Gustavo. Te chamar pelo nome ainda é estranho. Mas veja bem, a realidade não é o doce que pensamos que ela seja. Na verdade, projetamos falsas realidades para fugir da dor. Nada é como parece. Mesmo o que é ruim não é como parece. Há muito sofrimento em vão nessa vida, Gustavo. E há muita felicidade mentirosa também. Até a sinceridade é relativa. É de costume pensar com o coração, e é por isso que a gente tenta projetar os nossos sonhos na realidade. Se não fosse essa nossa conversa, eu diria que sonhei por esses 15 anos, desde o dia que te conheci até o dia que desconheci. Sonhei que éramos felizes, que éramos inteiros e que não tivemos filhos por não precisar de desculpas para o amor que tínhamos. Sonhei que quando compramos o nosso apartamento e demos a festa de inauguração, tínhamos conquistado o nosso reino. Sonhei que você era um príncipe e que eu era a princesa da sua vida. Sonhei que nosso apartamentinho, que decoramos juntos, era o nosso castelo. Sonhei que era esse castelo que nos protegia do mundo e que trazia o aconchego para nossa alma. Eu sonhei tanta coisa, Gustavo, que esqueci da realidade. Era você chegar, sentar no nosso sofá vermelho, que a realidade me parecia inútil. Você trazia a fantasia nos passos. Era ouvir o barulho da chave na fechadura da porta que eu arremessava a realidade janela afora. E você bem se lembra que eu não sou de cultivar inutilidades. Quer dizer, eu não sei. Me diga você, Gustavo, você se lembra? Eu sei o que eu disse sobre a realidade e as projeções, eu sei que não sou o que você achava e que você também não é o que eu pensava. Eu sei, Gustavo, que a minha forma de enxergar as coisas é diferente da sua, e que a gente foi incapaz de atingir a telepatia. Mas me responda, Gustavo, pegue como referência as tortas de cascas de abóbora que eu fazia, os sucos com cascas, as agendas de poesia feitas de papel reciclável com que eu o presenteava. Então, agora você vê que desse amor eu tentei viver, que eu o reciclava todos os dias, que o recriava cada dia mais lindo na minha cabeça? Mas o amor não se constrói só, Gustavo. Não digo que você nunca participou dele. Não é isso que estou dizendo. Mas chegou um dia que você parou e eu continuei. Eu achei que fazia isso por nós, mas não, foi o meu momento mais egoísta; acreditar que era por nós quando era só por nutrir um medo infantil de solidão. Sabe, Gustavo, eu chorava quando os castelos de baralho que eu fazia desmoronavam. Pois é, tem muita coisa sobre mim que você não sabe. E eu chorei também quando o nosso castelo caiu. O meu mundo foi junto, o mundo que era meu e que há minutos atrás eu jurava ser nosso. Não estou te responsabilizando pelo fim disso. Novamente, Gustavo, não é isso. Eu só estou falando o meu ponto de vista e provando a minha teoria de que a realidade é relativa. E que ser sincero com o outro é simplesmente expor o mundo particular que se arrasta junto do corpo. A gente enxerga o mundo de fora com referências do mundo de dentro, Gustavo. A realidade é aquilo que a gente cria e que a vivência prova ser verdade, não é aquilo que a gente lê nos jornais. Os jornalistas são pessoas, Gustavo. E nem disso, de criar uma realidade, eu era capaz, eu fingia acreditar que não precisava provar nada pra ninguém, inclusive pra mim. E quando as coisas de fora se acabam, algo dentro da gente desmorona. Sim, são lagrimas, Gustavo. Mas eu prometo serem as últimas. Eu choro o que está morto dentro de mim. A gente morreu aqui dentro, Gustavo, você entende? A gente, na verdade, nunca existiu. Eu sei que a vida continua, e como sei! E é só por saber que um dia vai passar é que ainda não pulei da janela. Eu só não sabia que éramos tão frágeis. Eu sei que estou com a voz embargada, mas não quero mais chorar. Temo criar em você uma importância maior do que realmente tem o nosso passado. Ser sincero machuca, mesmo quando não se quer machucar. Está doendo muito? O que eu queria era que você se aprofundasse em cada palavra desse meu discurso, porque era de nós que eu falava. Sim, eu acreditei em um nós. Você me chama de fria e insensível e é incapaz de enxergar a beleza que eu via no nosso nós, Gustavo. Por nós, eu mataria e morreria. Agora, eu preciso construir um novo mundo, um que não seja nosso, mas que seja lindo. Eu preciso, Gustavo, retocar a maquiagem. E preciso de um espelho, para lembrar quem eu sou. Por um momento eu pensei ser você. E pensei ouvir de você tudo o que eu te disse. Eu não sei o que você sente, e até isso eu crio. Eu criei você, agora, por favor, me conte que espécie humana é você, que por mais que eu mergulhe fundo nunca encontro. Diga-me, um dia cheguei realmente perto de você? Digo, de quem é você de verdade. Às vezes eu tenho a impressão de que você veste até a alma de terno e gravata, mesmo com você me dizendo que se as pessoas fossem sensatas só usariam roupas no inverno. Eu amei alguém a quem dei o seu nome sem saber se era você. A minha vida, Gustavo, passou de poema para novela mexicana, até isso eu demorei perceber.
Mesmo que por agora você não acredite, foi para contar a nossa história que escrevi tanto. E tanto. E não concluí, só molhei as folhas, manchei as folhas cheias de reticências. Em todo fim eu punha reticências – fim de frase, de parágrafo, de texto – e as vírgulas traziam frases intermináveis. Na verdade, eu nunca terminei um texto satisfeita. Em toda carta minha pra ti, mesmo que um bilhete de uma linha, era o início ou o meio de algum livro. Possuo vários livros que nunca escrevi. Eu não sei usar corretamente os pontos, Gustavo, e isso em muito me dói. Não dá para tirar conclusões daquilo que não existe, o que a gente cria serve para nos dar referências, serve de um norte, um porto que não é seguro e nem imóvel. Eu ando tão reticente, tão vulnerável e assustada, e disso eu sei sem precisar perguntar, você também acha. A verdade tem mais de uma face, são como linhas que se cruzam no infinito. Me conte de você algo que eu ainda não saiba. Ou melhor, conte-me tudo desde o princípio, porque eu não entendo. Onde foi exatamente que a gente se perdeu?
~ por Marília Alves às 20:46 |