Segunda-feira, Julho 21, 2008
- Des-encontro
Era uma situação no mínimo inusitada. Ela tem dessas coisas, de ficar imaginando situações e cair de cabeça num estado onírico. Faz muitas vezes sem perceber, para saber lidar com tudo antes mesmo que as coisas aconteçam. Mas isso ela não previu. Ficou assustada. Quis dizer alguma coisa, quis gritar, quis chorar, quis gargalhar, quis morrer. No entanto, continuou estática, os olhos parados fizeram o choro vir de qualquer jeito. Quis ter coragem de levantar da mesa, de ligar para a mãe, de pedir conhaque, mas não o fez. Continuou sem dizer nada, num silêncio que machuca quem está sentado à frente. Ela recusou o colo, recusou o abraço e fechou a boca dele com os próprios dedos. Não disse para que ele não falasse, mas era óbvio demais para que ele não percebesse. Ela não disse nada e ele também não. Estavam os dois machucados. Ele se sentia culpado. Ela tinha no rosto algo que pairava entre o belo e o assustador. Olharam-se e assim permaneceram por horas – falo do relógio que não é de pulso, nem de parede, falo do relógio que bate entre o coração e o peito, dela. Ele quis dizer que era mentira, brincadeira, quis colocar um nariz de palhaço e fazê-la rir, mas ele era sincero e era disso que ela gostava nele, ao menos foi pensando nisso que ele disse o que disse e causou o que causou. Não foi para machucar, ele nunca a machucaria intencionalmente.
~ por Marília Alves às 00:40 |
Sábado, Julho 12, 2008
- Eximir-se
O bom de não se aprofundar numa relação é não se sentir parte das dores do outro. É ouvir, aconselhar, ser solidário sem sofrer junto. Ela é tudo o que preciso, me faz feliz, e nem disso sabe. Porque colocá-la a par disso é aprofundar e nós não aprofundamos. Soube hoje que um amigo dela morreu, fiquei chocada, ofereci o ombro, as mãos, mas não chorei junto. Um tiro na cabeça. Não perguntei o motivo. Faz três dias que ela não dorme, não come, não vive. Dizendo chorosa ao telefone, me contou que se muniu das últimas forças para me ligar. Disse que queria me ver. Eles deviam ser muito próximos, amigos mesmo, aquele tipo de relação profunda e cúmplice. Acho até que, juntos, cometeram assassinatos e pequenos roubos. Não que ela tenha feição de quem pratica crimes por aí, mas tem os olhos suspeitos, camuflados por um rosto angelical emoldurado por cabelos loiro-brancos, que devem ser retocados de semana em semana.
Ela me ligou porque não queria ser julgada. Preferiu a mim, uma quase desconhecida, para dizer tudo, tudo mesmo, sem se sentir culpada ou invadida por derradeira ressaca moral, após confessar que o Luís era um filho da puta, exatamente com essas palavras, mas que ela o amava. E o amava justamente por isso, por ele ser um filho da puta que nunca prestou mas que a fez feliz. "Ele não merecia morrer desse jeito, era muito jovem, lindo e tinha uma vida toda pela frente. Ele só precisava de tempo, um pouco mais de tempo para cair na real e atingir um bom nível de crescimento moral. Ele era bom, só não queria que ninguém soubesse disso". Ela o amava e repetiu isso até cair no choro e chorou até dormir, com a cabeça nas minhas pernas. Ficamos assim por horas, eu com as mãos em seus cabelos loiro-brancos, e ela dormindo um sono profundo, deitada na minha perna encharcada de lágrimas.
Luci acordou como se não conhecesse a mim e ao meu apartamento. Depois me abraçou forte, muito forte, os músculos das costas estralaram, me envolvendo toda em seus braços. Um beijo no rosto, um sorriso amarelo, um "muito obrigada, o seu apartamento é lindo e o café estava ótimo". No hall de entrada, o táxi já a esperava. Eu te amo. Eu também te amo. Se cuida. Me cuida.
– Posso ligar em qualquer emergência, a qualquer horário, mesmo pra dizer que quero pular da ponte principal da cidade?
– Claro, para tudo, em qualquer horário, mesmo que só para dizer isso.
– Me liga também, de vez em quando, no celular, que é pra eu ver o seu nome piscando na tela. Não precisa falar nada, nem precisa me esperar atender, se não quiser.
– Eu ligo.
Um outro beijo, agora na testa. O táxi dá a partida e em questão de segundos se perde entre os outros carros. Ela me transmite uma paz num silêncio difícil de explicar. Talvez eu conte a ela sobre isso. Da próxima vez, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada.
~ por Marília Alves às 20:24 |