Quinta-feira, Agosto 28, 2008
-Som de dentro
"Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre
O meu sorriso é por consolação
Porque sei conter para ninguém ver
O pranto do meu coração"
Quando as coisas de fora mudam, as coisas de dentro acompanham. Sendo válida também a ordem inversa. As mudanças seguem ainda que errantes, abarrotadas de acidentes de percurso. Insisto. Entre passos trôpegos, vou seguindo em frente, chegando pra lá de atrasada ao momento seguinte; trazendo do momento passado uma bagagem de toneladas pesando nos ombros. Cicatrizes e fraturas expostas. O corpo remexe de um lado, a alma sacode do outro. Os dois elementos se confundindo, mutuamente. Uma dança não catalogada surge para completar um samba choroso. O samba é a música da ironia – triste pra fazer feliz. A harmonia fala alto e se faz sentir – dentro, fora. Ela grita agudo e isso é grave.
Sou uma espécie de samba, que bate sem uma letra pra justificar, e que, batendo, apanha. Tenho vontade de desistir às vezes. Com o tempo, as mudanças caem na armadilha da rotina. E toda rotina me traz esgotamento. Farta de tudo o que não é mutável em meio a esse alvoroço, escrevo, para libertar os monstros, abrir as janelas, espanar a poeira e deixar o ar entrar. Para sentir o frescor que a vida, num esforço involuntário, tende a abafar. Porém, buscar palavras parece inútil, como parece inútil achar sentido nos paradoxos que surgem como pedras no meio do caminho. Novamente insisto.
Insisto porque li um texto do Fabrício Carpinejar que me fez capaz de insistir sem maiores (des)culpas e grandes esforços. Não há distância entre eu e mim. Não há distância entre mim e ti. Estou aqui. Inteira, completa. Estou aqui e te vejo aí, com os olhos perdidos e dengosos. Te ouço daqui, como ouço a mim quando uso a voz de dentro, te ouço com os ouvidos que não são estes do interior das orelhas. E te vejo e te sinto. Teus dedos estralando enquanto minhas mãos batucam na mesa. Há um sincronismo, uma espécie de linha magnética que nos une. Você me lê e sente o que eu sinto. Sorrio porque você existe. Achar palavras já não é mais tão penoso, porque estás aí e me vês. E, vendo-me, é capaz de me sentir. E ao me sentir, eu te sinto. Por você, insisto. E insisto também por ser do tipo de pessoa que se pagou para ver, fica até o final, até o fim dos créditos e da música de encerramento. Fico até que não haja uma só lâmpada acesa.
Não sei desistir, não sei parar. Gosto de saber-me desesperada, tendo que escolher entre caminhos opostos. Gosto de brincar de advinha com o destino. Finjo escolhê-lo, mesmo sabendo que a escolha final não é minha. E que, mesmo escolhendo que o tempo pare, ele não irá parar. Mesmo pedindo, como se faz em prece, para o tempo voltar, tal pedido cairá no buraco negro da utopia e a vida não cessará, continuará batendo, sacudindo, colocando o tempo pra girar. Mesmo sabendo que o meu destino não me pertence e que as minhas escolhas serão, sempre, metade erradas. Escolher é também abrir mão. Tudo é uma questão de prioridade.
Reluto contra o ímpeto de parar por não saber ser diferente. Não compreendo muito as voltas que o tempo dá para chegar aonde chega, mas já compreendi que tudo muda em velocidades variadas, em vários ritmos, sob o som de várias trilhas sonoras. O meu tempo de agora segue como música rápida e agitada, que só amansa ao som da cuíca. Amanhã, quem sabe? E por tudo ser assim, tão passageiro, o corpo pede para ser alma e viver. Porque as marcas que se leva na alma são atemporais, sobrevivem às guerras e bombas nucleares. A vida me é desconcertante, tem muito dela que ainda não me foi permitido entender. Continuo ouvindo o samba triste porque só me resta ser feliz.
~ por Marília Alves às 16:40 |
Sexta-feira, Agosto 01, 2008
- Sobre o desamor
"Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada."
Não é um "até logo" ou um "a gente se vê por aí" que vai fazer com que tudo mude, com que tudo vire nada. Não nascemos para ser nada. Não sei para quê nascemos, qual o propósito disso tudo, mas sei que não foi para sermos nada. Se eu sou um nada e você idem, somos nadas que se completam, somos nadas importantes um para o outro, e isso me basta. Não no sentido de valer a vida. Eu preciso de muitas outras coisas além do nosso nada, mas para todas essas outras coisas que também me precisam, a certeza de nos ter deve estar atrelada. Para que haja ressonância, alegria e prazer. Para que a vida não se torne um acidente. A minha vida tem sido um completo acidente. Eu me perco caindo de escadarias infinitas, escorregando em rampas, entrando em becos sem saída. Eu só me encontro com o vão, o que, no fim das contas, é não me encontrar. Eu só me perco, me gasto, me ofereço na bandeja em banquetes de almas mortas. Ironizando o conceito de alma, é claro. Nos corações alheios ao vasto significado de tê-los pulsantes, encrostam-se lodo.
Eu poderia gastar linhas mil falando da indiferença do mundo, do quanto as pessoas se assustam ao tomarem consciência de que são amadas e o quanto que ao assustarem-se também me assustam, a ponto de me deixarem acuada, emudecida, palhaço de circo falido. Resumo-me ao título de louca, por não ter vergonha de assumir que os amores de que partilho não existem apenas em sonho, que por serem reais, fazem-me menos inha. Como que toda essa ironia torna-se tão arrebatadora e me bole por dentro, eu não sei, eu não entendo. Sei apenas que não vou mais gastar palavras com tal indiferença. Não vale o esforço mental, não vale o peso que vai ao peito, não vale a lágrima suspensa. A indiferença está aí, do outro lado da porta, pronta para ser observada, sentida, pronta para gerar colapsos.
Entretanto, o que eu te digo passou mais de século trancafiado à sete chaves, longe de olhos curiosos – incluindo os meus. Foi observando o mundo além porta que descobri a importância de vir e dizer que sem você o mundo não seria a mesma coisa – sem restringir a frase ao nosso nada, posicionando-a de maneira abrangente. Cada um de nós já nasce entrando automaticamente em extinção, não existem dois Fulanos com o mesmo olhar, mesmo partilhando também da mesma cor de olhos. Os conceitos que generalizam só existem para tornar o mundo mais prático e o diálogo possível, o que não impede ninguém de inventar o próprio dialeto, os próprios conceitos. Ninguém é moldável como alguns modelos sugerem, modelos que, cá entre nós, não passam de falsos ideais. Ninguém é capaz de modificar o que não é passível a mudanças. Nada pode ser dado a você que em você não exista. Não se abre com fórceps um novo mundo de imagens, uma nova palheta de cores, uma vasta salada de sons e fragrâncias. O que é dado, e que deve ser sumamente aproveitado, é a oportunidade, o impulso, a chave para o mundo que dentro de você permanece adormecido. O que é oferecido é uma segunda chance de tornar visível o próprio mundo, nada além ou aquém disso.
Quisera a existência das coisas simples retornar à magia, mas tudo não passa de truques, de sacanagens da mais pura hipocrisia. Blefe! A magia não existe. Atrás da porta eu não te encontro à minha espera, do outro lado da linha eu não te ouço, no gelo que ficam as minhas mãos abanando o vento eu não te sinto. E então correr o risco de desbravar matas, percorrer quilômetros de geleiras pra no fim te ouvir dizer que tudo não passa de besteira, de mais uma das bobagens da minha coleção, rangem-me os ossos. Sobra pouco no que acreditar e eu adoro acreditar. Eu tenho necessidade de acreditar para continuar vivendo, para continuar seguindo diante à cegueira posta a minha frente. Por isso eu te peço para não desistir, te desejo fé em qualquer coisa que te faça acreditar novamente, te desejo qualquer tipo de vida, de rompante que te faça crer em tudo outra vez. Porque te ver vivendo me dá vontade de viver também.
Eu não vou ficar criando o dia perfeito, imaginando o seu regresso, projetando os abraços, não. Porém, uma coisa não anula a outra e já não consigo deixar de esperar. Porque os sorrisos ficam rotos quando você não passa, os olhos perdem metade do brilho quando não te vêem. Antes de tudo o que conservo quente congelar e trincar em mil pedaços, eu te peço: chegue mais perto. O desamor é um veneno contra a juventude. Se as pessoas soubessem o quanto faz bem para a pele, amariam mais. Não se limite a ser igual. Não envelheça por covardia, por vergonha de tentar.
~ por Marília Alves às 20:09 |