Segunda-feira, Setembro 22, 2008

- Chuva de Plumas

E daí que eles não gostam das mesmas coisas e ele nunca ouviu falar do filme preferido? Que importância tem as coisas, nessa altura do campeonato? Coisas são só coisas. Além do mais, uma guerra de travesseiros no meio da noite é feita por pessoas, e não por seus gostos.

~ por Marília Alves às 22:13 |


Segunda-feira, Setembro 01, 2008

- Querido Nico,

Quero te dizer tanta coisa que está difícil de segurar os dedos, que saem descontrolados pelo papel, numa rapidez que nem eu sabia ser capaz. É tanta coisa boba que tenho pra te contar que talvez fosse melhor telefonar ao invés de escrever, mas não gosto muito de telefone. Aquele fio me deixa aflita, com vontade de entrar dentro dele e te surpreender do outro lado, com o abraço mais apertado que a saudade tem para oferecer.

Sonhei com você. No sonho nós ríamos, colhíamos amoras, pintávamos árvores nas paredes brancas do sítio e descobríamos cores novas. Descoberta que nos rendeu entrevista num canal de TV, cujo cenário consistia numa copa de árvore, onde, sentados nos galhos, contamos contentes aos apresentadores, que faziam as vezes de entrevistadores, que essas cores ao serem ingeridas transformam-se em borboletas dançarinas, que se instalam na barriga e que ao primeiro sopro, saem borboleteando pela boca, contagiando tudo ao redor. Engraçado, os sonhos parecem acontecer bem pertinho de a gente acordar, será por quê? Falei "a gente", mas nem sei se isso acontece só comigo.

Acordei querendo borboletear também. Levantei assim que despertei do sonho, tomei um banho, me vesti e ganhei a rua. No caminho da casa da Tina, esbarrei numa moça que me sorriu banguela e sem vergonha, me remetendo ao sorriso de Luísa que, por sinal, te mandou um beijo. Cheguei à Tina e fui logo recebida por Florêncio, que latiu tanto que Tina teve de enchê-lo até o talo de biscoitos, ela diz que esse método sempre funciona – depois de hoje, devo concordar. Os biscoitos eram aqueles que você trouxe de Piracicaba. Tina e eu falamos das suas fotos de Piracicaba, passamos foi mais de hora comentando sobre aquela que só aparecia um pouco do seu cabelo e o sorrisão da Catarina, que tem andado sumida. Rimos bastante, Catarina tem esse dom de fazer as pessoas rirem. Vou dar uma ligada para ela amanhã, se o fantasma do telefone não me atacar novamente. Ajudei a Tina com o almoço, mas fui-me embora antes que ficasse pronto. No jardim que dá para a saída, Florêncio veio abanando o rabo e logo virou de barriga, sabe como é, tive que fazer um carinho, falar como se fala com bebê e sair de fininho. Fui correndo na vendinha porque me disseram que o Seu Pedro estava colocando os doces de abóbora feitos por Nhá Filó na vitrine, e eu não podia perder a oportunidade de comê-los ainda frescos. Comprei três, comi dois na escadinha que dá pro salão da Dona Vera, que desde que soube do corte de cabelo que fiz com Abadia me dá de ombros, e guardei um para Maria Cecília, que só comeu dois dias depois – mal sabe ela que os doces da Nhá Filó são pedacinhos de Céu quando frescos.

Seu Pedro se referiu a você como "o menino que está sempre contigo", achei bonitinho – tanto o jeito com que ele se referiu a você quanto o fato de se lembrar de nós; eu estava tão diferente que achei que ele nem se lembraria, mas lembrou e eu saí feliz da vida segurando o pacote de Pedacinhos de Céu – dessa vez tinham forma de coração. Dona Vera que podia ter me confundido ou esquecido, também gravou bem minha fisionomia. Sebastiana, aquela menina que trabalha com ela, foi quem resolveu puxar conversa: "Como tá, moça sumida? Nunca mais te vi com o Nico por aqui". Aliás, como a Sebastiana sabe o seu nome? Você é mesmo inesquecível! Maria Cecília concorda comigo, comentou dia desses, assim, sem motivo, enquanto regava as plantas da sala. Dei um beijo de bochecha na Sebastiana, desci as escadinhas meio apressada por motivo nenhum, indo de rumo à minha casa, pelo caminho que se faz necessário atravessar o parquinho – lembra dele? Continua cheio de crianças e seus brinquedos, da próxima vez que for ver Tina, lembro-me de levar a câmera – sempre digo isso e nunca lembro. Cheguei em casa, arranquei os tênis e me derramei no sofá, tinha me esquecido do quanto a casa da Tina fica longe da minha. Cochilei e acordei sem nenhum vestígio seu neste outro sonho, que se aconteceu passou despercebido por meu subconsciente. Acordei com o corpo dando sinal de dores. Lembrei do sonho que me trouxe até o quartinho de estudos para te escrever, quis te ligar, mas coloquei uma música e fiquei brincando com o Bartolomeu. Me distraí e quando fui ver já tinha ficado tarde demais para ligar, ainda mais sabendo que agora você mora com uma moça que tem insônia. Vai que por sorte ela já estava dormindo? Fiquei receosa. E como tem passado a tal moça? Perdão por me esquecer do nome dela, mas mesmo assim mande lembranças minhas e diga que me lembro da promessa que fiz de levar uns livros de poesia na próxima vez em que eu for aí visitá-los. Estou no terceiro disco e sinto um genérico de dor, ao pensar em finalizar a carta. Está tão bom aqui, imaginando-te abrir a caixinha do correio pela manhã, que eu só trocaria esse momento por qualquer outro em que você estivesse comigo também em corpo. Caetano cantando aquela parte que a gente costuma parar tudo pra gritar em coro "Ah, bruta flor do querer / Ah, bruta flor, bruta flor!" me fez perceber o quanto te quero por perto mais vezes, o quanto quero ter as suas mãos nas minhas por mais tempo. Afinal, segundo o Seu Pedro, você deveria estar sempre comigo.

Agora já é bem tarde, Bartolomeu dorme aquele soninho fofo dos gatos, Maria Cecília resolveu dormir de bobs hoje, depois de rirmos bastante de tal feito. O que a gente não faz em nome da beleza... Uma moça que estava no salão no dia que fui cortar o cabelo com a Abadia disse uma coisa sábia: para ficar bonito, primeiramente, fica-se feio. Maria Cecília dá uma beleza sofisticada a essa feiúra pré beleza-arrebatadora. Os moços da cidade que se segurem, amanhã!

Em falar no que já não se demora a vir, preciso ir. Irei até a feira bem cedo e umas horinhas de sono, para dar tempo de sonhar, me parecem irresistíveis. Deseja-me sorte para que seja contigo. Mas, quero antes, além de desejar um boa-noite-dorme-com-Deus-tenha-bons-sonhos, dizer que te amo.


Um beijo,
M.

~ por Marília Alves às 19:57 |