Sexta-feira, Outubro 17, 2008


- Resposta:

Você me pergunta por onde anda a minha razão e eu não sei responder. Não há razão por aqui. Nem mesmo sei se um dia ela esteve – ao lado, dentro, comigo – enfim, ou se era só a Dona Emoção usando fantasia. Tudo o que há em mim só quer ser e sentir. Permito-me todas as sensações, sem retrucar. De gota em gota, aos poucos, sinto-me transbordada. Nado no rio saído de mim, mergulho sem ter de prender o ar. Respiro nessas águas como não respiraria em ar nenhum.

~ Enviado por Marília Alves |


Sexta-feira, Outubro 10, 2008


- Chuva de Espuma

E daí que eles não gostam das mesmas coisas e ele nunca ouvir falar do filme predileto? Se ela se surpreendeu com o livro de cabeceira e os dois jamais falaram a mesma língua? Que importância tem as coisas, nessa altura do campeonato? Coisas são só coisas, feitas para tropeçar. Além do mais, uma guerra de travesseiros, no meio da madrugada, é feita por pessoas, e não por seus gostos.

~ Enviado por Marília Alves |


Quinta-feira, Outubro 02, 2008


- Pára-raio

"Da vez primeira que me assassinaram perdi um jeito de sorrir que eu tinha… Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha…"

Senta aqui do meu lado. Escuta aqui o meu coração. Escuta e traduz o que ele diz. Olha aqui dentro dos meus olhos. Fica assim, sem desviar o olhar pelo tempo que conseguir. Milésimo de segundos farão toda a diferença, tenta acreditar. Me abraça com teus braços de penas. Me prende nas tuas pernas de anjo. Cobre com o teu manto os meus ouvidos entupidos do barulho da rua, das buzinas dos carros, das falas interrompidas. Tudo foi se quebrando, esparramando pelo chão. Reduzi-me a pequenos fragmentos que se perderam pelos cantos do quarto. Sinto minha cabeça nos pés, meu estômago na garganta e meu coração em pedaços, espalhado por partes do corpo que, por falha de memória, não consigo nomear. Acalma a tempestade que ameaça surgir na pele seca. Cala as vozes que me atrapalham ouvir o canto dos pássaros. Nada mais importa. Me embala com o teu canto de fazer dormir. Me pega com tuas mãos em concha. Nada mais existe. Me refaz inteira – o meu um metro e meio de altura reduziu-se para metade de meio metro. Me sorri aquele teu sorriso de luz. Conversa com a lua, que é tua amiga, diz a ela para devolver os dias, faz tanto frio! Pára o mundo com o teu sopro de paz. Segue comigo. Alivia o medo com a esperança que plasma em ti. Me ensina sobre o florescer, que eu prometo silenciar o bater das asas das borboletas que, no momento, encontram-se cansadas e acanhadas demais para cirandarem e colorirem de furtacor o mundo todo branco. Se eu dormir, me tome pelas mãos e me leve como uma pena, leve. Entenda o meu fechar de olhos físicos como um abrir de olhos para as verdades da alma. Peça perdão às fadas dos sonhos pelo descuido, por mim. Eu não tenho voz e não sinto mais os braços e as pernas. Eu já não penso... e nem sinto... (quase) nada.

Os teus passos macios rompem o silêncio do quarto. Um cheiro de perfume que não se define entre o cítrico e o doce, dança por todo o espaço, preenchendo todas as lacunas, todo o vazio. Um sonho... é preciso sonhar.

~ Enviado por Marília Alves |