Domingo, Novembro 30, 2008


...

Ignorar uma realidade não vai fazer com que ela mude. É preciso saber lidar com a dor e com o fracasso. É preciso ir além da porta. Mais que só colocar o rosto de fora da janela e contemplar o vento, que depois da chuva traz um frescor macio ao toque na pele, é preciso ouvi-lo, é preciso senti-lo. E sentir-se. Sentir, é preciso sentir. Decodificar. Faz-se necessário elaboração de novo dicionário, novo dialeto, novos sinais. E é preciso mais, sempre mais, muito mais. É preciso vontade. Mas, onde se compra? O mercado de ilusões fecha cedo, bem cedo, e eu acordo tarde.

Exigem-nos paciência e velocidade. Quem entende?

~ Enviado por Marília Alves


Quarta-feira, Novembro 26, 2008


- Os bolsos e suas in-utilidades

Foi naquele dia que descobri a real função dos bolsos. Quando a verdade ainda me era oculta, acreditava que serviam para guardar chaves e dinheiro. Bolsos femininos são menores, as chaves não cabem sem que parte delas fique para fora e eu não tenho dinheiro. Teve época em que eu arrancava os bolsos – andava com calças rasgadas e nem me preocupava com a parte do corpo que aparecia. Qualquer coisa a mais – ou a menos – no jeans e já interpretam como estilo. Que seja. O meu estilo era, então, rasgar inutilidades. Dessa forma, passaram-se anos.

Várias vezes minha mãe me pôs de castigo, sentada de frente para a parede branca do quartinho dos fundos. Em seguida, recolhia os bolsos que eu deixava espalhados pelo chão e costurava-os de volta, de um jeito meio menina-que-faz-roupas-para-bonecas, ou, bondosa-senhora-carola-que-faz-colcha-de-retalhos, com a velha máquina da minha avó. Até os 10 anos era minha mãe quem escolhia o que eu deveria vestir, que cores e assessórios eu deveria usar. Eu não entendia, mas aceitava. Minha mãe interpretava minhas perguntas como afrontas. A cada pergunta que eu fazia, ela aumentava mais quinze minutos no castigo. Houve dias em que eu, como boa moleca que sou, passei quatro horas sentada na cadeira velha de madeira, olhando o branco da parede. "Os adultos não têm muita paciência, não", deduzi, admirando os círculos coloridos que se formavam à minha frente. Eu explico: quando se olha fixamente para um único ponto, o pensamento se perde e, em vez do branco da parede, passa-se a enxergar círculos luminosos, que ora piscam no mesmo tamanho, ora diminuem e aumentam. Aquilo me encantava. As horas passavam e eu sequer as sentia bater. O tic-tac que vinha da cozinha incorporava-se aos círculos trazidos por meus olhos arregalados. Uma grande festa visual. Eu só não podia fechar os olhos.

Quando me rendia à forte ardência das pupilas, olhos semi-serrados, lágrimas corriam. Lágrimas que não eram de dor, de amor e de nenhum outro sentimento já catalogado. Elas vinham quando eu não suportava mais manter os olhos abertos, estatelados, admirando figuras como as de um caleidoscópio. Vinham como correntezas, me arrastando de volta para o mundo – para o pequeno quarto com cheiro de mofo, para a casinha de piso vermelho e frio e para o relógio tiquetaqueando na cozinha, que ficava ao lado do pequeno cômodo que, agora que me pus a lembrar, me vem à cabeça dizer que era demasiado úmido.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Era uma tarde quente de um domingo típico. Um dia que, aparentemente, não vinha com intuito de trazer surpresas. O relógio que batia já não era o da cozinha, nem mesmo era o da casinha com cheiro de infância. O relógio que batia, que tiquetaqueava de um jeito agudo e metálico, era o do meu bolso direito, da calça jeans que combina perfeitamente com camiseta branca e chinelos de borracha. Os bolsos, descubro agora, servem para guardar o tempo.

~ Enviado por Marília Alves