Domingo, Janeiro 25, 2009
- 31 de outubro
Sem que a gente perceba, os anos chegam trazendo respostas. Vinte e dois anos rasgando bolsos até que chegasse o dia 31 de outubro. Estávamos na plataforma do trem, Jorginho e eu. Jorginho falava sem parar, coisas que não deveriam ser permitidas a humano nenhum dizer, pelo menos não àqueles que amam, ou que têm vocação para a coisa. Acho que ainda sou muito nova, pois só isso justifica a mania de acreditar demasiadamente na sinceridade das pessoas. Sou incapaz de sustentar mentiras ditas olho no olho. Para mim, olhos são pontes para o sagrado
(amém!). Jorginho só dizia coisas para machucar, ia disparando sílabas que chegavam como balas ao peito – embora não se avistasse sangue, era possível sentir o cheiro de pólvora. Pensei que fosse morrer. Até hoje não compreendo como sobrevivi àquele momento.
Mas aqui estou, mais viva do que em todos esses dias antecedentes ao bem-vindo 31 de outubro de 1998. Chovia muito. Era boa hora para chorar sem que Jorge percebesse, mas eu não sabia chorar. Até os vinte e dois anos, o choro era para mim como a verdade para Jorge, nada íntimas. Até onde sei, a única vez que havia chorado foi no dia do meu nascimento, após ser espalmada pelo médico obstetra. Por todo esse tempo, insisti em encontrar graça em tudo quanto vi e vivi; se a tristeza vinha, eu a recontava com outra versão, uma versão que fosse suficientemente risível e convincente. E eram elas as que eu compartilhava com os amigos. Eu os convencia somente porque, antes, também me convencia. Eu nunca havia tido a alma lavada, nunca, em meu rosto, haviam encostado dedos consoladores. Os soluços eram resultado de horas de gargalhada. O curioso é que eu nunca soube mentir para ninguém sem antes mentir pra mim. Talvez porque eu também nunca havia rido de frente ao espelho e, por isso, nunca me havia fitado fixamente no reflexo dos meus olhos. A gente passa anos da vida se enganado e achando que esse é o nosso melhor. A gente vive por e para o outro achando que assim sendo, não somos egoístas.
Eu poderia ter alimentado a raiva que senti de Jorge, mas não fui capaz fazê-lo por mais de cinco minutos. Não que ele fosse digno do meu amor, e não que também não fosse, porque não sou eu quem julga quem merece e não merece receber amor, nem mesmo o meu, mas o que eu sentia por ele era exatamente isso: amor. Eu o amava e sou grata por tê-lo conhecido, pois foi por esse motivo que senti a umidade das lágrimas escorrendo sobre minha pele já molhada pela chuva, graças a ele conheci outro som de soluço que não o do excesso de riso, e senti – disso eu me lembro com tanto carinho que só em tocar no assunto sinto-me revivendo o momento – como são delicados e doces os dedos que suspendem nossas lágrimas. Sinestesias caberiam aqui de tal forma que todos os cheiros, gostos, sons e sensações do mundo poderiam compor a descrição. Mas não vou descrever, não tenho olhos tão fotográficos a ponto de captar exatamente os movimentos do Seu (e meu também) Antônio e o olhar compadecido que este endereçava a mim. Eu o abracei e chorei copiosamente. Chorei o que não havia chorado em todos esses anos. Chorei porque eu já não era menina, com fé a cega de menina. Embora fosse de tristeza, era também de alegria que eu chorava. Eu chorava porque era capaz de chorar. Quando não se tem memória de já haver chorado, o choro se torna milagroso e lindo, assim como deve ser o primeiro sorriso de alguém. E chorava também pela emoção que me acometia ao sentir o compasso do coração do Antônio e sentir também o meu, respondendo às batidas do ele.
Sabe, dona Cássia, Deus me perdoe de falar o que vou falar, mas o seu filho, o Jorginho, só colheu o que semeou. Eu não sou cega, mesmo tendo-o amado tanto. Sei que a sua dor deve ser respeitada, tamanha é, mas não se colhe frutas doces e perfeitas de uma árvore oca e podre. Se a polícia não o achou antes foi por esperteza de Jorginho. Mas não se pode fugir de si mesmo por muito tempo, não é mesmo? Se não somos nós mesmos a nos encontrar, alguém faz o trabalho por nós. Mas tome o seu café, Dona Cássia, antes que esfrie. Tenho muita estima pela senhora e suas lágrimas me tocam profundamente. Serei os dedos que as suspenderão. Você não está só. Ninguém está. Se não há mãos e ombros ao lado, tem sempre um berço consolador lá em cima, no céu, que é pra onde a gente vai quando cai no sono depois de tanto chorar.
~ Enviado por Marília Alves |
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
- Diminuir para crescer
"Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?"
Por que flor se chama flor? Talvez porque parede se chame parede, chão se chame chão e céu se chame céu, ou ainda porque tudo segue no lime da rotulação. E o que é ser ridículo? Não falo só de cartas de amor ou dedicatórias de livros, não, mas o todo. Acreditar é ridículo? Ou ridículo é quem mente, quem leva a vida como um jogo de carteado e as pessoas como dados e cartas? Confuso, e quanto mais se pensa sobre mais confuso fica. Cartas de amor são ridículas, todos sabem, sobretudo quem, embutindo-se de toda coragem – que, muitas vezes, nem se sabia existir, até que algo de essencial fosse posto à prova –, já as endereçou, sente na pele ruborizada o quão ridículo se pode ser. Se bem me lembro, a sensação que dá se assemelha àquela de presentear a mãe ou o pai com objetos fabricados com macarrão, palitos de picolé, massinha de modelar etc., que tão dedicadamente foram feitos, mas que têm valor material descartável, no entanto, os olhinhos brilham à espera da reação do outro – segundos que duram anos, coraçãozinho na iminência de arrebentar. Sem que essa comparação, antecedente a essa explicação, tenha algo a ver com Freud ou psicanálise. Não me entendam mal ou supervalorizem meu poder de persuasão. Só estou externando o pensamento porque procuro respostas empiricamente fundamentadas. Não é ridículo dizer "me lembrei de você", mas o é dizê-lo de outra maneira, dedicando músicas, poemas, fotos, flores ou o que for? Serenatas já saíram de moda, caixas de bombons e buquês de rosas vermelhas são traduzidos como preliminares ou pedidos de perdão. Dizem que rosa vermelha significa paixão. Aliás, o que é paixão? É aquilo que se traveste em fogueira, ardência, ausência de razão e de pudor, a luxúria no seu âmago? Acho confuso. Por anos as rosas vermelhas foram as minhas preferidas e, em conseqüência disso, as ganhei de várias pessoas que não namorados. Ganhei de amigos, amigas e até mesmo da minha mãe, muitas vezes acompanhadas de bombons (de cereja, que também eram os meus preferidos). Vendo paixão como impulso de vida, faz sentido tê-las ganhado repetidas vezes, pois que só o fizeram quem, à sua época e ao seu modo, foram para mim lampejos de vida, motivos que me impulsionaram a remar nesse mar de incertezas que é a convivência com o mundo. Quando a gente pára pra pensar nas coisas, no sentido delas, tudo fica meio desorientado, o mundo parece outro e o lápis já não parece lápis nem o disco parece disco – como as vozes e os instrumentos conseguem caber dentro daquela circunferência compacta? Não que esse pensamento tenha valor, ou que os deva invadir da mesma maneira que a mim. O que tem de valor nele e em todo o texto é a motivação à observação das pequenas coisas. Se de tudo fica um pouco e se cada minuto é valioso por ser único, aproveitem os minutos gastos com a leitura deste em próprio benefício. Questionar é essencial, não só as crianças têm o direito de questionar tudo e todos, acho que é do ser humano querer achar sentido e coerência nas coisas, a fim de chegar ao clichê substancial: de onde vim e para onde vou?
~ Enviado por Marília Alves |
Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
- Clarear
"Vou sonhando até explodir colorido
No sol, nos cinco sentidos"
Amanheci antes do sol. Acordei às 9:00, o dia ainda não acordou. Há claridade lá fora e algum calor também, mas o céu continua pintado de cinza, o resto de chuva brilha no asfalto. Não há crianças brincando. As palmeiras que costumam fazer a dança do vento estão paradas, parado também está o porteiro do prédio da frente e os carros no estacionamento. Mas eu amanheci, acordei para acordar o dia.
Há flores no vaso da sala, um disco que toca o ritmo que a vassoura e eu mais gostamos de dançar, tem uma rosa branca no meu quarto, lençóis macios, perfumados e bem estendidos no quarto de hóspedes. No quarto de hóspedes também há flores: crisântemos e margaridas. Há um terceiro quarto também florido: flores do campo em jarros de barro. Tem o cheiro de perfume recém usado, miscigenando. Tem mangas maduras na fruteira da cozinha e roupas brancas no varal. Pela ausência do vento, as roupas não se movimentam, o dia ainda não amanheceu. Quartos e sala ainda em penumbra, coloridos pelas flores, perfumados por elas. Foi o cheiro de arco-íris que me despertou.
Agora é hora de abrir as cortinas, persianas e janelas. É hora de o sol aparecer, para aquecer o mundo lá fora, para raiar o dia dentro das pessoas – acordar os tecidos da pele, os movimentos dos membros, os sentidos e os sentimentos. Canais, frestas e portas abertas. Agora é com as flores, que em língua ensinada pela mãe natureza, convidam o sol para perto e o azul do céu para abraçá-lo. As cortinas do céu também se abrem, as nuvens escondem-se atrás dos prédios e das montanhas. Cai o véu da noite, o filme da vida passa de mudo em preto branco para colorido em som de flauta doce. Vamos dançar?
~ Enviado por Marília Alves |