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Terça-feira, Fevereiro 10, 2009 - A Mureta Talvez se eu tivesse continuado esperando, sentada na mureta do quintal, balançando as pernas e chupando pirulito, eu te veria chegar trazendo o cravo branco na mão direita e escondendo a esquerda no bolso, como quem aprisionava borboletas. Talvez se eu não tivesse crescido ou desistido, ou se tivesse só crescido, mas continuasse usando saias de pregas, meias coloridas até o joelho, e continuasse me esquecendo de calçar os sapatos. E, claro, se eu não chupasse pirulito só quando estivesse sozinha em casa, para ninguém me ver – como se fosse pecado – e para o meu irmão não zombar de mim com os amigos que guardavam insetos nos bolsos quando ainda crianças. E se ainda sentasse na mureta do quintal de um jeito que os meus pés não tocassem a terra fofa das plantações de morango do meu avô. Se eu tivesse continuado sem acreditar em pecados e sustentasse acima da cabeça a nuvem branca de sonhos, e se quando me olhasse no espelho ainda visse refletido nele um coração maior que o peito – um coração realmente com formato, cor e ação de coração, aquele da bundinha fechada em “v”, de cor vermelho intenso e meio aveludado. Talvez, se naquele dia do sol escaldante, que me forçou a ir brincar de desenhar dentro de casa, na mesinha que vovó Amélia costurava pijamas para todos os seus 16 netos e também as roupinhas das minhas bonecas, eu tivesse aguentado o sol e tivesse me permitido ficar com as bochechas ainda mais rosadas e tivesse apreciado o brilho que o efeito do sol faz nos morangos. Talvez, tenho quase certeza, teria sido naquele dia que você viria, me entregaria o cravo, soltaria as borboletas aprisionadas na palma da sua mão esquerda, me daria um beijo apressado no rosto rosado e pintado de sardas e puxaria a minha mão, me convidando pra brincar. |