Terça-feira, Março 31, 2009


- Todo carnaval tem seu fim

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vai mais ser: "Eu me exprimo, logo sou". Será: "Eu sou, logo sou."

Dizem que tudo na vida é passageiro e há muito nisso que eu concorde, exceto quando se trata dos bons sentimentos e das boas pessoas. Há momentos e pessoas que sobrevivem ao tempo e, pelo menos pra mim, é o que faz valer a vida e todo o esforço em amanhecer, diariamente, com o sol – por menos visível que ele se torne, dependendo da estação do ano ou da quantidade de poluição – e anoitecer com a lua, ela estando visível ou não. A propósito, aqui em Brasília, tem tido lua durante a tarde – acho essa uma das artimanhas mais doces da natureza. Estou dizendo isso aqui porque tem sido raro eu ver a tarde passar em tons de azul ou de cinza, com ventos, calor abafado ou tempestade, e ontem eu pude fazê-lo, numa SOLidão sem dor, deitada na sombra da copa de uma árvore. Os pássaros, pardais e bem-te-vis, os patos e os insetos, dividindo comigo o espaço, foi o que me moveu a vir e escrever este texto, que já começou prevendo um ponto final meio dolorido de se dar.

A parte disso que reflete é a de que este blogue chega ao fim, e escrever isso aqui vai me doendo uma dorzinha fria e aguda. Estou trabalhando em novos projetos, que não envolvem blogues e uns que nem mesmo envolvem palavras. Eu tinha pensado em migrar daqui para o blogspot, que dizem ser um dos melhores gratuitos que se tem a disposição, conservando o mesmo nome e a mesma menina-flor de imagem. Mas acho que não quero mais conservar. E nem sei se quero mudar, também. Agora é a hora do nada. Meu tempo é coisa relativa demais, vai ver amanhã eu já esteja por aqui, de novo, toda serelepe, divulgando novo endereço e revelando ou repetindo cores e intensidades. Mas é que, por hoje, eu não quero mais.

Não precisa ser um adeus. Meu e-mail está ali, oh, do seu lado direito da tela e também aqui, nesta linha, em forma de link. Se o medo do abandono também te espanta, é só compartilhar. Não estou me fechando, me encubando, só estou dando preferência aos escritos dedicados, àqueles que ressoam e fazem dos sentimentos vias de mão dupla. Tenho tido necessidade desse calor mais perto, dessa ternura mais clara e menos covarde. Cansei do calor que não aquece, cansei das coisas pelas metades. Na verdade, o que tenho preferido, mesmo, são as cartas escritas em papel, à mão, são os abraços que misturam as texturas das peles, estreitando o quanto possível a distância entres as duas, o encontro que não é desencontrado. Quero conhecer intenções, mergulhar fundo nas pessoas, sem que para isso uma delas tenha de se ocultar ou mentir o nome. Quero a ordem direta! E menos pretérito, por favor.

Obrigada por tudo, queridos, por todas as palavras e sentimentos aqui manifestados, pelos encontros que este espaço me rendeu, e mesmo pelos desencontros que acabaram por acontecer depois, pois, mesmo estes últimos, fizeram valer o vício de tagarelar com os dedos e deram razão em comportar um coração batucador e derretido no interior do corpo físico. Obrigada pela reciprocidade e pelo calor dos abraços escritos. E, sobretudo, obrigada por serem pessoas de almas tão bonitinhas e encantadas. Por muitas vezes, encontrei nos comentários de vocês, registrados aqui ou ditos de forma mais direta, aconchegos e afagos, quase como abraços de proteção. Muitas dessas palavras vieram em momentos que rondavam fatos pessoais isolados, que me deixavam inha e quase transparente, de tão apagada, e daí vocês vinham e me devolviam o nome inteiro, sem diminutivo e sem que fosse preciso passar o mouse por cima para lê-lo. Por vezes, as palavras de vocês foram as únicas que me valeram e me fizeram pôr alma no corpo, mais precisamente nos dedos e nos olhos. O carinho foi e é recíproco, caso tenha ficado alguém sem saber disso, viu?

Novamente e mais uma vez, obrigada!

~ Enviado por Marília Alves |


Sexta-feira, Março 27, 2009


- Liquefação

"Já que tá aí, pela metade, mas tá, melhor cuidar pra peteca não cair, pra não deixar escapulir, como água no ralo. Aquilo que já fez calo, doeu feito joanete, castigou nosso cavalo, cortou como canivete. Feriu, mexeu, mixou..."


Fui enrustindo e escondendo até não dar mais, até ultrapassar o limite onde o líquido não transborda. Eu, derretida, transbordei. E o que era inconfessável, escapou, quase que leve, dos lábios semi-serrados. Leve teria sido se não fosse tão denso e pesado, se não fosse pedra, antes de ser água. É pesado e não voa, não toca, não tange aos seus olhos e olhares e nem acaricia os seus cabelos.

Escorrendo junto à chuva na janela, gotejando, vazando, enfervecendo. Evaporando. Mantenha-me longe do ralo. Se possível, dentro do copo, com tampa.

~ Enviado por Marília Alves |